22/06/2010

LANÇAMENTO DO MEU LIVRO, BRUXELAS, 19 JUNHO 2010

Foi, se me permitem, um sucesso: a minha família, os meus amigos, os 4 anos de Bruxelas ali revisitados numa tarde. A Orfeu estava cheia. Aqui ficam algumas fotos, uma primeira série, depois outras se seguirão.

A capa do livro:


A apresentação pelo meu amigo Lode Delputte:


A intervenção do Embaixador José Cutileiro, autor do prefácio: "Foi com muito gosto que escrevi o prefácio, um texto que se escreve no fim, coloca-se no início e não se lê nem no fim nem no princípio".


A intervenção do Embaixador Vasco Bramão Ramos, autor das fotografias (incluindo a da capa, que se vê na foto acima):


A minha intervenção:


A Orfeu e (parte d') os amigos que vieram:


A minha família que veio expressamente de Lisboa para o evento:


Os amigos, ou parte dos amigos que estiveram presentes:



...... amanhã ponho mais.

17/06/2010

LE FROMAGE



Il y a quelques annés, mon ami PCP m'a preté le livre "Who moved my cheese?", que j'ai lu et que je n'ai pas aimé. Pas si bien écrit, il me semblait une espèce de psycologie casanière ou un livre de "aide personelle" (un genre que je détèste). Mais, en fait, une decènie est passé et c'est un livre que me vient à la pen...sée assez souvent. Je retiens une phrase: "Qu'est ce que tu ferais, si tu n'avais pas peur?". Voici une question perturbante - quels sont les gestes de notre vie qui sont influencés par la peur? À quel point nos peurs nous conditionnent ? Sachant que nous tous avons des peurs, il faut en penser: aujourd'hui même, dans les prochaines 10 heures, que feriez vous sans hésiter si vous n'aviez pas peur?

09/06/2010


MOCIDADE PORTUGUESA

Vá, só uma perguntinha inocente: onde é que estão os pais e as mães portugueses que se indignaram porque uma professora mostrou publicamente as maminhas numa revista, agora que uma escola pública decidiu recriar um desfile da mocidade portuguesa no âmbito do seu projecto pedagógico?

06/06/2010


FUTEBOIS

OK, there we go. Within a few hours my social exclusion starts. It happens every two years, when the European and World Cups take place. For a month, there is no economic crisis, political debate, new films or books, posts or working issues, dinners or social events. Everything is about footbal, matches, results, players, qualifications and many other spiritual concepts whose use and understanding I’m deprived of. People don’t answer phones and I don’t understand why. Invitations are rejected and I tend to feel it is personal. Streets are empty and I wonder if I’m going to the office on a Sunday.
It is not that I don’t like footbal, as you may think. No: the point is that I’m totally indifferent to football. As a sport and as an event, I couldn’t care less. I don’t spend 30 seconds in front of the TV. My enthusiasm about footbal is the same of a 5 year old child who goes to the pediatric; of a housewife in Transylvania about global warming; of my grandfather about the particle accelerator.
And please, do NOT raise the argument about patriotism – I see no relation between love for one’s country and the result of what is now a major international industry where a bunch of men are outrageously payed to kick a ball. Greece won the Euro Cup in 2004 but that didn’t prevent the country to be where it is now. Is it more or less respected because of footbal? I doubt.
My social ostracism is about to begin and is going to last for a month. I respect everyone’s inner faiths but I take the opportunity to announce here that I’m glad to take invitations for dinners, cinema, drinks and other social programs in the coming month event if they coincide with the “big” (ooohhh) matches. Registration starts NOW.

01/06/2010


LE SUD

Cinq jours au nord de l’Europe (entre la Finlande et l’Estonie mais, en tout cas, j’ai déjà visité les autres). La conclusion : il y a, surement, beaucoup de choses merveilleuses ici mais ce n’est pas mon monde. J’aime la chaleur, pas le froid; j’aime le vin, pas la vodka; j’aime la plage, pas la montagne. Je suis du sud, du soleil, du sel, de la mer, de la lumière de Sophia, de l’inquiétude de Kavafis, de la folie d'Almodovar, de la musique de Tonino, des mémoires de Pamuk, des souvenirs de Bowles, du blanc de Mykonos, des ‘tapas’ de Barcelone, du Tage de Lisbonne, des cafés de Venise, de la médina du Caire, des odeurs de Marrakech, de la musique d’Istanbul. Mon univers est un autre, mes références sont ailleurs. Avoir le monde dans ma main mais, surtout, avoir le sud dans mon cœur.

31/05/2010



UM INGLÊS EM CARTAGO

Não me chegou a dizer como se chamava. Disse-me apenas que tinha 80 anos e era de Liverpool. Usava umas calças de linho bege, impecavelmente engomadas, uma camisa oxford e um chapéu panamá. Debaixo duns óculos grandes, tinha uns olhos amendoados. Ao pescoço trazia pendurada uma maquina fotográfica, modelo antigo, do tempo em que tirar fotografias era uma coisa requintada e se esperava que os rolos viessem da revelação. Estava apoiado num bengala fina, com punho de prata mas o adereço servia menos para o apoiar e mais para prolongar a indignação gesticulante com que apontava para os despojos de Cartago: "what have they done to this?", repetiu várias vezes, em fúria crescente, a disfarçar aquele desprezo endógeno que os ingleses têm por tudo o que vem de fora e por quem não bebe chá às cinco. Queria conversa e dei-lha -esteve em Cartago, pela primeira vez, há 40 anos, viveu um ano em Tunis nos anos 80 (veio por 15 dias, ficou 11 meses), tem um joelho de titânio que pôs há 3 anos em Chicago, não referiu família e disse-se, pudicamente, "consultor internacional" (naquela idade? não sei porquê mas aquilo cheirou-me a MI5). Deu-me o braço sem pedir, arrastou-me para a sombra e desdobrou um mapa de Cartago, velhíssimo, a preto e branco onde tentou identificar, perante o meu silêncio estupefacto, as pedras que nos rodeavam.
E, como chegou, partiu, falando sózinho, debaixo dum abrasador sol africano. Fotografava em periclitante desequilíbrio ajeitando, muito lentamente, o chapéu panamá.

17/05/2010

PUDORES


A professora Bruna Real fez mais por Mirandela do que décadas a promover alheiras. Farta do degredo e sobretudo farta dos salários miseráveis que em Portugal se pagam aos professores, decidiu sacudir a roupa e pousar nua para a Playboy. Acudam: a sacristia abanou, a província soçobrou e a vereadora Gentil disse que a docente já não servia (ao que parece sem sequer um processo disciplinar). Ora, que a professora Bruna Real é boa, é algo que não se pode negar. Não constam contra ela queixas pedagógicas nem reparos científicos. Qual o pecadilho? Mostrar as mamocas ao país (parece que em Mirandela a revista esgotou). E o país, entre a visita papal e as medidas anti-crise, em vez de sacudir os ombros e se preocupar com o que devia, anda indignado. Que os pais e as mães de Mirandela possam ser livres de decidir de quem ensina os seus filhos (e por isso são livres de, querendo, colocar os petizes noutra escola com uma beatífica docente, toda tapadinha, óculos magistrais, cabelinho aprumado, saia abaixo do joelho, ponteiro em riste e saltos pesados sobre o estrado) é um direito inquestionável. Já que a câmara municipal afaste Bruna Real, a quem - repita-se - não impede qualquer acusação administrativa ou pedagógica, isso mostra que o nosso bom e velho Conselheiro Acácio ainda anda por aí. E como no Eça, se formos ver bem, se calhar o velho conselheiro anda amancebado com uma qualquer criadita. Que, em todo o caso, não será a Bruna Real. Não me parece que a moça ande por aí a perder o seu tempo.

14/05/2010

A PROPÓSITO DA VISITA DE BENTO XVI A PORTUGAL


Reconhecer a centralidade da herança judaico-cristã no ocidente e a importância do catolicismo nas sociedades europeias é uma evidência. É assim: o múnus da igreja de Roma fez de nós quem nós somos (para o bem e para o mal) e negá-lo é negar-se a si mesmo. Nada disto tem a ver com o grau de adesão ao sucessor de Pedro, mais ou menos carismático, diz o povo, como se estivéssemos a falar dum grupo de música pop. Bento XVI, para início de conversa, é um Chefe de Estado, arquitecto político de geometrias que, tantas vezes (as mais das vezes), oscilam entre o bizarro e o espúrio. Não o compreendeu Estaline que perguntou quantas tropas tinha o Papa, não percebendo que estas tropas não são as das trincheiras mas, muito mais perigosas, as dos baluartes do dia a dia.

Eis o ponto de partida essencial para perceber os atavismos romanos. Do romeiro em busca de Jerusalém ficou um mal disfarçado proselitismo cavado, amiúde, sobre um défice de compreensão caleidoscópica do outro. Da negação feuerbachiana do corpo, ficou o lastro do divórcio entre Eros e Ágape (salvaram o Filo), com repercussões devastadoras e que, ironia pérfida, atingem agora a própria instituição eclesial. Da arquetipização fálica do poder ficou a subsunção feminina remetida a um convenientemente dócil culto mariano, para decoro das consciências.

Sabem-nos os que leram Thomas Mann que a lógica discursiva da fé vence todas as batalhas porque explica tudo, impregnada pela força do espírito, varrendo argumentos e argumentadores: na batalha entre a razão e a fé, é sempre a última que sai vencedora porque é combatente incansável, é luz que não se apaga.

Confundir Cristo com a igreja é tomar a árvore pela floresta, o deserto de sal pelo sal do deserto, o Manuel Germano pelo genoma humano, a obra prima do mestre pela prima do mestre de obras. Alguém me dizia há dias que os escolhos do caminho da apostasia são afinal, como a beleza para Platão, o rosto visível do sagrado, a parte de deus que podemos suportar com os sentidos. Há muitos caminhos para chegar ao belo. Resta saber quem são os escolhidos. Mas sobretudo, resta saber onde arde a última vela a apontar o caminho da redenção. Tenho para mim que a resposta é menos evidente do que se julga.

13/05/2010

06/05/2010


NO MORE BEGINNINGS

Na madrugada do dia 21 de Outubro de 2004 aterrei em Luanda. Depois do pequeno almoço na pastelaria Nilo, instalaram-me num apartamento que iria ser remodelado mas que, naquele momento, estava num estado próximo do lastimável e parcamente mobilado. No quarto havia uma cama, uma mesa de cabeceira e um armário. Quando abri o armário para pendurar as camisas, fiquei com a porta do dito na mão e o secular guarda fatos ameaçou desfazer-se. Percebi então que aquilo não ia ser fácil. Percebi que só na má ficção os "começos" estão besuntados de encantamento.

04/05/2010


Telefonaram-me à hora de almoço a dizer que tinha morrido (ao que parece ontem) a minha antiga professora primária. Poupar-vos-ei aos circunstancialismos piedosos que o 'requiem' inspira: as recordações que tenho dela não são as mais brilhantes, por razões que seria deselegante aqui evocar neste momento. É verdade que os tempos eram outros e não tinha pegado a moda do "pedagogês". Se isso não desculpa episódios que não esqueço, também não duvido que, nas suas imensas limitações, terá procurado fazer o melhor que sabia. Aquela mulher foi quem me ensinou a ler e por isso, apesar de tudo, hoje, curvo-me perante a sua memória.

29/04/2010



...a mim, hoje, só me interessam as portas que abril não abriu.

19/04/2010


AS 3 VIDAS - JOÃO TORDO
Amigo estimado e conhecedor destes assuntos recomendou-me "As 3 Vidas" de João Tordo, assegurando-me que era um nome a registar e seguir na novíssima literatura portuguesa. Segui o conselho e li. O livro tem tudo o que se pode pedir a um bom romance americano: imaginação, estória, ritmo, cadência cinematográfica, bons diálogos. Tudo como se faz nos "States". Não tem mal nenhum seguir a escola americana. O problema do livro é que tem Paul Auster a mais e William Faulkner a menos. Mas isto é uma questão de gostos.

16/04/2010


CADERNO DE MEMÓRIAS COLONIAIS, de Isabela Figueiredo

Se há uma coisa que a memória de Portugal tem de fazer é repensar o passado colonial e libertar-se duma herança historiográfica importada do Estado Novo, do luso-tropicalismo freyrista e do mito do português suave. Isabela Figueiredo tenta contribuir para tal (o que, em si, tem mérito) mas resvala para um testamento memorialístico para onde confluem Édipos mal resolvidos e panfletismos de mau gosto, resultando num texto (?) desarticulado e às vezes maçador. Esta tendência de resolver na literatura os problemas de casa (Martin Amis padece da mesma doença...) não me agrada.

THINGS I WILL MISS ABOUT BRUSSELS (IV) - "Fontainas": The best pub in town: lovely staff, nice decoration (very good photos), laid-back clientele, easygoing atmosphere. And wonderful Saturday afternoons in the sunny terrace, reading the newspaper! (...ok, it was not always sunny...).

15/04/2010


PHILIP ROTH

Although "The Humbling" is far from being Roth's masterpiece, the truth is that this man in purely unable to write bad books. Here, we fly over Simon Axler, a famous aging actor facing the sunset of his career. As I went through those pages, it came to my mind a very cynic, violent but at the same time human sentence of Friedrich Dürrenmatt in "The visit": «le monde a fait de moi une pute; je ferai du monde un bordel». Touché.

13/04/2010


THINGS I WILL MISS ABOUT BRUSSELS (III) - “Pralines” – The Swiss chocolates are the most famous but no one does then like Belgium. There are “pralines” for every taste, every price, every costumer, every occasion. My favourite: Marcolini (the good news is that there is a Marcolini shop in Tokyo!).

11/04/2010


Em 1977, Vladimir Nabokov morreu na Suíça. Deixou um conjunto de cartões (era aí que escrevia os seus romances) com "The Original of Laura". Em conversa com a família, Nabokov tinha deixado indicações expressas que, caso morresse antes de terminar o livro (como veio a acontecer), as fichas deveriam ser destruídas. Durante mais de 20 anos, as ditas fichas ficaram fechadas num cofre de um banco suíço porque a família não chegava a acordo sobre o que fazer. Quando a viúva morreu, em 1991, o filho Dimitri leu esse "projecto" encerrado há vários anos. De novo o dilema: destruir, respeitando o desejo do pai? ou publicar, oferecendo ao mundo o último trabalho de um dos mais importantes escritores do século XX? Dimitri anunciou a publicação em 2008, dizendo que também Virgilio tinha deixado indicações para destruir a "Eneida" e Kafka sobre a "Metamorfose". A "Time" disse tratar-se do evento editorial do ano; a "Die Zeit", que leu as fichas, disse que as mesmas eram "Nabokov vintage". Martin Amis, que tinha conhecido pessoalmente o autor russo-americano, bateu-se pela destruição. Publicado o livro, constata-se afinal que não se trata de um romance, mas de um projecto de romance, notas soltas, não buriladas, inacabadas, ideias ainda por sistematizar, faltando um 'corpus' narrativo que haveria de chegar, tivesse Nabokov vivido mais uns meses. A minha edição é da Penguin mas o que eu gostaria mesmo de ver é a edição especialíssima e restrita de 500 exemplares que foi feita pela revista "Playboy", com cuja edição americana Nabokov colaborava como cronista.

"O melhor emprego que já me ofereceram foi o de gerente de um bordel: liberta-nos do medo e da fome, o lugar é tranquilo durante a manhã e há bastante vida social ao fim do dia". William Faulkner, "Entrevistas da Paris Review", 1956

09/04/2010

Um blog político que frequento escrevia ontem que o sonho de qualquer homem é ter uma mulher de direita na mesa e uma mulher de esquerda na cama. Não sei se é o sonho de qualquer homem mas será de muitos que conheço. Mas não valia a pena trazer para a blogosfera, em termos de ciência política, o que o Marco Paulo, esse grande artista, já tinha cantado há tantos anos. Está lá tudo.


THINGS I WILL MISS ABOUT BRUSSELS (II) - “Frites” – Don’t ask me why because I can’t explain it. But the Belgian “frites” are the best in the world. They are crispy, crunchy, sometimes spicy, and moderately salty. They are served with almost everything but their zenith is the happy marriage with the “moules”. Needless to say, it goes better with a “blanche”. [Hint: best frites in town are in Place Jourdan and in Place de la Chapelle].

06/04/2010


O AMOR É UM LUGAR ESTRANHO

Em 1924, Hannah Arendt, uma jovem judia alemã de 18 anos, entrou na Universidade de Marburgo e começou a frequentar as aulas de Martin Heidegger, jovem e brilhante professor de 25 anos. Tornaram-se amantes. No início dos anos 30, Heidegger torna-se reitor, defende Hitler e o Partido Nacional Socialista, faz a apologia do nazismo e expulsa e persegue alunos e professores judeus. Hannah Arendt foge para França e depois para Lisboa, daqui partindo para os EUA. Não estabelecem contacto durante 17 anos. Em 1950, Arendt, que tinha estado envolvida em campanhas pelos direitos dos judeus, volta à Alemanha e retoma o contacto com Heidegger, então alvo de perseguições pelo novo regime. Hannah, nesta altura já professora em Nova Iorque, mobiliza esforços pela sua reabilitação, gere os seus direitos autorais nos Estados Unidos e escreve em defesa do antigo mestre que “ele tinha uma natureza fundamentalmente boa”. Em 1960, numa dedicatória privada, sussura: [a MH], "a quem permaneci fiel e infiel, sempre por amor”.

Além de esta estória nos levar a reler as teses de Arendt em “A condição humana” e “As origens do totalitarismo”, leva-me sobretudo a um desabafo: o amor é um lugar estranho. Mais: o amor é o mais estranho de todos os lugares.
(post dedicado a um amigo, hoje corroído pelas estranhezas deste lugar. ele sabe quem é).

05/04/2010


THINGS I WILL MISS ABOUT BRUSSELS (I) - Une Blanche
I must say that before coming to Brussels I was not a beer guy. But the truth is that you can't miss it when you live here. As we say about bacalhau and the French about their cheese, there is a different beer for each day of the year. I'm not sure if this is true and, in any case, I haven't tried them all in almost 4 years. Still, my favourite is 'blanche', a cold, fresh, light and socializing 'blanche'. It goes with a meal, after a meal, as an apero or just as a good excuse to go out and mingle with friends. Hemingway once said that a man is never alone by the sea. True. But it is also true that a man is never alone "by" a 'blanche'. Encore une blanche, s'il vous plait.

02/04/2010

CLARICE LISPECTOR
Boas notícias à 6ª feira santa: a monumental biografia de Clarice Lispector, por Benjamin Moser, vai ser editada em português em Setembro! Clarice é um dos autores de língua portuguesa mais perturbantes de sempre, uma obsessão de muitos anos, um mistério insondável e irresolúvel, um labirinto sem chave.

31/03/2010


BACALHAU COM TODOS E ISCAS COM ELAS
Confesso que me parecem as duas designações mais absurdas de toda gastronomia portuguesa (quiça mundial): bacalhau "com todos"? iscas "com elas"? Mas quem são estes apêndices que se metem aqui com o bacalhau e com as iscas? No primeiro caso, parece que são as batatas, as cenouras, as couves, os ovos e os grelos. São cinco: logo, não são todos porque ficam de fora imensas outras possibilidades - arroz, esparguete, couves de bruxelas, couve-flor, presunto pata-negra, ervilhas e feijão verde. No segundo caso, são as batatas. Mas por que razão não se diz "iscas com batatas" em vez de "com elas"? A verdade é que a designação remete para um plano ligeiramente aporcalhado - "elas" são as que não têm nome, as de vida fácil, as que vão as iscas hoje e com os bifes amanhã. Depois, "elas" vão com as "iscas" que, na terminologia popular, também vivem em fraternal vizinhança com o deboche. Imaginemos o seguinte: alguém fala de "bacalhau com elas"? Não. Porque o bacalhau é um senhor, um cavalheiro requintado, magnânime, não anda por aí a vadiar com "elas" (pelo menos em público). O que não seria, por maioria de razão, se as iscas fossem "com todos"...

29/03/2010


VALTER HUGO MÃE

Havia quatro razões para não ler este livro: (1) uma capa horrorosa; (2) um título absurdo; (3) uns artigos de jornal que referiam hugo mãe como "o escritor pop do momento"; (4) um livro anterior ("o apocalipse dos trabalhadores") de que não gostei. Ora bem: contra estas razões, decidi comprar e ler o novo livro de valter hugo mãe, "a máquina de fazer espanhóis". Em boa hora: a escrita é límpida, madura e arrojada. A cadência narrativa tem uma musicalidade própria, guiando-nos pela dor do senhor silva que, aos 84 anos, se vê viúvo, perdendo mais do que laura, perdendo o sopro de lucidez que o mantinha de pé. Há na escrita de hugo mãe um experimentalismo que nunca chega a ser pretencioso, tacteando terrenos virgens mas com uma segurança notável. O arrojo de ter um escritor de menos de 40 anos a dar corpo a um personagem que leva quase 9 décadas de vida é talvez a fragilidade mais evidente do romance: falta corpo e densidade a algumas das viagens de antónio silva. Mas, apesar de tudo, julgo que é um aspecto menor na escrita de alguém que aceita correr o risco de escrever para reinventar a linguagem.

28/03/2010


JL

Gosto do novo JL. Gosto do grafismo. Gosto da Hélia Correia na capa.
HERCULANO


A mátria andou excitada este fim de semana com os 200 anos do nascimento de Alexandre Herculano (vá lá, a excitação possível em matérias afins). Eu não. Eu não gosto de Herculano. Nunca gostei de Herculano. Embirro com Herculano. Tenho calafrios quando me lembro do débito escolar que me obrigou a conviver com Eurico. Irrita-me o tom barroquinho a preto e branco. O vozeirão a defender a magistratura moral. A deriva conservadora anti-setembrista. O providencialismo dum homem só. Os discursos parlamentares anti-desenvolvimentistas. O amuo ribatejano de quem achava que o país não o merecia. Ao menos à época Portugal era uma monarquia. Caso contrário, tenho para mim que Herculano teria concorrido à mais alta magistratura da Nação.

25/03/2010

"This is a big fucking deal", says Biden. Republicans are shocked. More shocked than with the fact that 32 million Americans didn't have health care untill now...

24/03/2010

GATOS

Descobri ontem à noite, no túnel da negritude por onde nos levam as noites de insónia, que Júlio Cortazar tinha um gato chamado Theodor Adorno (descobri também que Cortazar nasceu em Bruxelas porque o pai era diplomata argentino então aqui colocado). Cortazar explica, não sem detalhe, as razões que o levaram a baptizar o bichano com o nome do filósofo alemão. Foi uma análise de personalidade, longamente observada e maritalmente consentida. Também Dorris Lesing tem uma deliciosa colectânea de contos sobre gatos (why cats matter, diz-se na contra-capa). Entre nós, Fialho de Almeida escreveu um livro assim chamado, Prado Coelho dedica-lhes páginas do diário, Gabriela Llansol vivia rodeada de gatos, Hélia Correia idem. Os gatos têm um charme, autonomia, sobranceria e delicadeza que não escapa aos escritores. Não fazem barulho e passeiam em cima dos livros com tacto poético. Alongam-se como uma frase sem vírgulas, abanam-se como um diálogo mal escrito, desaparecem como uma personagem incómoda, roçam em nós como uma narrativa insinuante, olham-nos como um narrador omnisciente. Não há bicho mais literário. Sobretudo quando desaparecem para sempre sem deixar rasto. Já me tem acontecido o mesmo com alguns livros.

22/03/2010

DIA MUNDIAL DA POESIA


Eu estava a ler e a tomar café. A mulher entrou: era muito alta, vestia um sobretudo preto e trazia calçadas umas botas de neve. Estava abundantemente maquilhada, a disfarçar sete décadas de dor. Sentou-se numa mesa ao lado da minha, tirou as botas e arrumou-as alinhadas ao lado da cadeira. Pousou um saco de plástico branco, a abarrrotar de memórias e, tirando o sobretudo, ficou à vista um top escarlate que escondia mal os peitos. Revolveu o saco e tirou um estojo de maquilhagem, uma caixa de óculos, um porta-moedas azul e uns papéis velhos. Pediu um gelado de morango e três copos de água. Bebeu a água de um trago só e comeu o gelado muito devagar. Mexia abundantemente no saco e ia tirando peças de roupa, trapos ciganos de cores garridas, um vestido comprido, uma cabeleira loura, um cachecol veranil e outros adereços que poderiam ser circenses, ou de um cabaret de arrabaldes urbanos ou de um teatro de província. Parecia balbuciar qualquer coisa de si para si, uma oração incontida, um perjúrio assumido, mas sempre num tom inaudível e constante. Não levantava os olhos mas, de vez em quando, olhava alternadamente para mim (obrigando-me a disfarçar o meu fascínio) e para duas outras mulheres que, mesa adiante, se queixariam ora dos patrões ora dos maridos. Quando acabou o gelado, pegou num dos copos e verteu os restos de água para dentro da taça. Depois pediu mais guardanapos e limpou furiosamente e mesa. Estávamos nisto quando entra um homem mais novo do que ela, de cabeleira farta, casaco roçado, rosto escanhoado, trazendo na mão um molho de cenouras, como noiva a caminho do altar segurando um ramo de íris. Aproximou-se da mulher, debruçou-se ao ouvido e sussurou qualquer coisa. Depois deu-lhe um beijo, pousou as cenouras em cima da mesa e partiu. A mulher arrumou o saco grande de plástico branco e, impávida, pagou a conta com elegância e saiu também.

Uma leitura apressada poderia levar a pensar que esta cena, imperturbavelmente verdadeira, é um sinal do surrealismo belga. Não é. Esta cena, imperturbavelmente verdadeira, foi o rosto visível do Dia Mundial da Poesia.


20/03/2010

COMPUTADORES

Sou funcionário público há mais de dez anos e trabalho diariamente em frente ao computador, dezenas de horas por semana, centenas de horas por mês. O computador não é meu, nunca o considerei como tal, nunca tive um computador novo, sempre herdei computadores dos meus antecessores e deixei computadores aos meus sucessores. Mas seria ridículo e hipócrita vir dizer que não o uso (também) para fins pessoais, que não uso e consulto as minhas contas mail pessoais ou extractos bancários (por exemplo) e que não tenho uma pasta separada com documentos pessoais. Nisto, como em tudo, recomenda-se bom senso e parcimónia. E recuso, em absoluto, a ideia de que um servidor do Estado não tem direito à privacidade.

19/03/2010

PORTUGAL
A ESCOLA

No espaço de poucas semanas recebi dois grupos de alunos portugueses: um duma escola pública do interior do país e outro dum colégio privado duma grande cidade. Em ambas as escolas se via o mesmo: firmeza, determinação e generosidade dos professores; vontade, curiosidade e espírito crítico dos alunos. Mas uma conversa aprofundada com uns e outros (mesma faixa etária, pré-universitários) mostrou uma coisa: a escola não está a corrigir as desigualdades sociais, está até porventura a acentuá-las. Ora, esse é porventura um dos maiores desígnios da escolarização: corrigir assimetrias sociais para dar a todos as mesmas oportunidades. Sem isto a sociedade nunca pode ser justa.

Nós caminhamos radiosos sobre a nossa miséria (Holderlin).
O PRÍNCIPIO DE TI - A ler absolutamente (mesmo), a crónica do Miguel Esteves Cardoso, hoje no "Público" sobre a queda do cabelo da Mª João (sua mulher) que tem cancro. O que poderia ser uma devassa, torna-se um grito que rompe com o sufoco.
Message to Israel: Call us when you are serious (Thomas L. Friedman)
http://www.nytimes.com/2010/03/14/opinion/14friedman.html
Para uns, a raiz é a parte invisível que permite à árvore crescer. Para mim, a raiz é a parte invisível que a impede de voar como os pássaros. Na verdade, uma árvore é um pássaro falhado.
Afonso Cruz

Centro de Berna, ontem ("roubado" ao blog Abrupto, de Pacheco Pereira).

13/03/2010


I can easily think of some friends who would love to wear those!

11/03/2010


Um envelope que aterra em cima da secretária. Um remetente inesperado. Um livro. Um cartão. Uma mensagem. Há pessoas que ainda nos surpreendem. Há instantes de esperança.

Ser invisível aos olhos que passam.

10/03/2010


IRAQUE - Taxa de participação nas eleições: 62.4% (Portugal: 59.7%)

ALDA DO ESPIRITO SANTO
Comprei, por mero acaso, um livro de Alda do Espírito Santo em S. Tomé em 2005. Descobri só depois que tinha sido Ministra da Cultura e figura de proa da luta pela independência. Foi talvez o poeta mais significativo da literatura santomense. Já em Bruxelas, em 2009, evocámos a sua obra numa sessão de poesia e música no quadro da CPLP, onde foram lidos poemas seus, junto com os de outros poetas lusófonos. Morreu ontem em Luanda.
TOILETS - On my reading/ googling about Japan, I came across this video about the local toilets? Should I cry or should I laugh?

09/03/2010



SAMUEL BECKETT


Essayer encore. Rater encore. Rater mieux.





06/03/2010



PASOLINI

Pasolini faria hoje 88 anos. Destemperado, inconsútil, radical, foi amigo de Tonino Guerra e deu-nos alguns dos textos mais candentes da literatura italiana do século XX. Tinha um olhar penetrante. "Teorema" é um dos meus livros de sempre.


Pedem tanto a quem ama: pedem o amor. Ainda pedem a solidão e a loucura. Herberto Hélder

02/03/2010

O pó futuro, em que nos havemos de converter, é visível à vista, mas o pó presente, o pó que somos, como poderemos entender essa verdade? - Pe. António Vieira

TUDO SE DESFAZ