30/04/2011


CASAMENTO REAL: o sonho, o pesadelo e a realidade







29/04/2011


OS AMANTES

Ver
aqui.

(por uma qualquer razão técnica, não consigo importar directamente o video, mas confiem em mim e cliquem em cima para o youtube para ouvir 3 minutos e qualquer coisa de amor em estado puro).


28/04/2011


VITORINO MAGALHÃES GODINHO (1918-2011)


Aprender a problematizar




Obviamente, não conheci Vitorino Magalhães Godinho. Mas quando tinha 16 ou 17 anos tive como professora de história uma das melhores docentes da minha "carreira" de aluno. Ela sim, tinha sido aluna de Godinho. E sem nunca gritar pelos Annales como quem declama poemas neo-realistas num palco improvisado na Avenida (o que me remete para a memória de outra professora que veio mais tarde), um dia entrou na sala e perante aquela mole de alunos, disse: "Hoje vamos problematizar".

E explicou então àquelas desveladas criaturas que éramos nós que nem tudo o que vinha nos manuais escolares era sinónimo de verdade absoluta - explicou-nos que em História, com o rigor de quem faz ciência, é preciso saber questionar, interrogar, desconfiar, verificar. Como estávamos em capítulo dos Descobrimentos, apresentou-nos uns textos de Godinho que desdiziam o que os ditos manuais mochileiros afiançavam como bom. Perante a desconfiança de alguns e o desinteresse larvar da maioria, disse: "isto é problematizar".

Também aprendi a pensar com esta professora e, através dela, com o Professor Vitorino Magalhães Godinho.

27/04/2011


O AMANTE




Vejo-o todos os dias na reunião. Senta-se sempre no mesmo lugar, na última fila. Entra com o porte majestático de quem transporta confiança em si e no mundo. O ar exótico inspirado em misticismo oriental é temperado pelo corte impecável de fatos ingleses e gravatas italianas. No cabelo, o excesso de brilhantina não chega a comprometer a pose. A elegância, como qualquer elegância digna desse nome, é estudada ao ponto de parecer descontraída. Ouve o que se passa com ar ausente mas firme. Poderia estar a fumar uma cigarrilha, se acaso déssemos com ele de fato de linho branco encostado à balaustrada de um navio ao largo da Indochina.

Sabia que o conhecia. Mas quem era? Ao fim de várias semanas percebi que fugira das páginas de Duras e era, afinal, o comerciante rico de “L’Amant”. Nem sei como se chama mas agradeço-lhe ter-me recordado uma das frases mais belas da história da literatura: Très vite dans ma vie il a été trop tard.


26/04/2011


25 de Abril em Tóquio










Jardim de Hamarikyu, antigo local de residência da família shogun Tokugawa no século XVII.


25/04/2011


Sem título





Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner
(O Nome das Coisas, 1977)



(roubado ao CD - haverá pena para quando se rouba um poema?)


24/04/2011


DOMINGO DE VERSOS - Jorge Luis Borges




O Suicida

Não restará na noite uma só estrela.
Não restará a noite.
Morrerei e comigo irá a soma
Do intolerável universo.
Apagarei medalhas e pirâmides,
Os continentes e os rostos.
Apagarei a acumulação do passado.
Farei da história pó, do pó o pó.
Estou a olhar o último poente.
Oiço o último pássaro.
Lego o nada a ninguém.

Jorge Luis Borges, in "A Rosa Profunda"


23/04/2011


April, 23rd, World Book Day




We should read to give our souls a chance to luxuriate.


Henry Miller




22/04/2011


REQUIEM




Hoje é dia de ouvir isto. E ficar no sofá a ler Borges. Boa Páscoa.


21/04/2011



CAMPANHA ELEITORAL À JAPONESA





No próximo domingo, o Japão escolhe 88 presidentes de câmara e 283 assembleias municipais. O debate foi discreto, arredado da imprensa e refém da catástrofe do mês passado. O mais curioso para um observador externo é olhar para a campanha: o silêncio das cidades japonesas (mesmo numa grande capital como Tóquio) é rompido por carros semi-alegóricos que desfilam debitando decibéis de promessas. Distribuem-se folhetos e as "arruadas" (o termo é absolutamente impróprio, uso-o só para comparação com a terminologia portuguesa) não são muito diferentes: o candidato avança rodeado da equipa com bandeiras, distribuiu sorrisos e cumprimenta com vénias os passantes. O mais curioso é que, por razão que não descortino imediatamente, os membros do staff de campanha estão marcarados e acenam mecanicamente e sem cessar como se fossem uma família real no varandim dum palácio europeu.

Um aspecto muito curioso é que a grande maioria das listas a sufrágio, não são de partidos: são de grupos independentes de cidadãos. O poder local (as eleições são para o nível "mais baixo", equivalente à nossa freguesia, aqui correspondente ao "ku") não é coutada partidária mas sim da sociedade civil.

Nem vale a pena dizer que não há um cartaz colado nas paredes, nem um papel pelo chão. Semanas antes de começar a campanha, foram postos em vários pontos da cidade uns painéis de madeira, com divisórias, sendo que cada grupo concorrente afixa a sua propoganda apenas e só no pequeno quadrado que lhe está adstrito (ver foto em cima).

Esta manhã, dei com este cartaz onde constatei - não sem agrado - que um conhecido e popular político português é candidato em Chiyoda-ku. Sempre foi um homem do mundo.


20/04/2011


"MASS" CULTURE - I, a manga

Costuma aqui dizer-se, com muito exagero de simplificação, que o Japão contemporâneo vive a "MASS culture", a cultura da Manga, Anime, Sushi e Sashimi.

A manga - ou banda desenhada - é uma tradição muito antiga, que se julga remontar ao século VIII. Era, na altura, uma compilação de paisagens e desenhos da natureza, evoluindo depois para retratos simplificados de pessoas ou manuais de guerra.

Foi a partir do início do século XX, dizem os estudiosos que por influência americana, que começaram a ser publicados os álbuns com "estórias" que se foram espalhando e popularizando, algumas vezes cumprindo funções de propaganda política mas sempre atraindo número enorme de leitores.


Loja de manga em Tóquio

Hoje a manga é uma indústria em larga escala, movimentando cerca de 3 mil milhões de euros por ano e constituindo valência nobre das editoras. A mais famosa revista de manga é editada pela Shueisha, que é o equivalente à portuguesa Leya.

Há estilos variadíssimos de manga, sublinhando os seus críticos que têm como traço comum um tom de permanente violência e uma esteriotipização do papel dos sexos. Mas isso não impede de ser um fenómeno global, exportável e inseparável da cultura japonesa. Qualquer loja de conveniência tem um canto onde vende revistas manga e à hora de almoço é normal ver-se clientes que se amontoam para ver as novidades.

Ao domingo à tarde, o fenómeno ganha vida real e pelo Parque Yoyogi e por Harajuku os leitores mais vidrados - homens e mulheres - mascaram-se com os trajes do seu personagem favorito e passeiam tranquilamente em Omotesando. Como se não houvesse amanhã.

19/04/2011


PORTO SEGURO




Entre um sobressalto geológico e outro, voo entre a elegância da estética onde não me revejo muito mas que reconheço finíssima de Carlos de Oliveira em "Uma Abelha na Chuva" ("Um instinto profundo, a que não dava nome, avisava D. Cláudia de que em tudo havia uma crueza que era melhor não desvendar."), a escrita menos japonesa que um japonês já produziu de Kenzaburo Oe em "The Changeling" ("What?, the teacher spluttered indignantly, Which ancient book did you find that foolishness in? How was it phrased in classical Japanese?") e o neorealismo urbano de José Rodrigues Miguéis em "A Escola do Paraíso" ("O toucador da Miquelina: espelhos, mármores, castiçais e metais doirados, vermeil (pechisbeque, no dizer da mãezinha), esmaltes com bosques, ninfas e pastores, frasquinhos e atomizadores com a borrachinha envolta numa rede de retrós, e as borlas de pó de arroz, tufadas, frescas, leves como espumas"). Valter Hugo Mãe está à espreita e Toni Morrison já bateu à porta.

Vou assim, como num livro à deriva em busca de porto seguro. Os livros nunca me falharam.


18/04/2011


TÓQUIO E O RIO SUMIDA




Há cidades que vivem casadas com rios - Lisboa com o Tejo, Paris com o Sena. Mas a comparação mais próxima aqui seria Nova Iorque com o Hudson, pela dimensão das cidades e dos rios envolvidos. Embora, na sua essência, a relação seja diferente. NI tem o Hudson uma relação patriarcal, dominante. O Hudson faz parte de NI mas é-lhe marginal. Há entre os dois uma relação de força de iguais - uma downtown viril que se prolonga num Hudson cheio de rebocadores (Hey, you wanna hear my philosophy of life? Do it to him before he does it to you., "Há lodo no Cais", Elia Kazan, 1954).

Tóquio é diferente - a cidade e o seu rio são potentosos mas o Sumida tem uma espécie de doçura feminina indisfarçável. O Hudson dá filmes e poemas modernos, o Sumida dá haikus de Basho (spring peace/ a mouse licking up/Sumida River). O Sumida prolonga a cidade mas transmuta-lhe a cor, embeleza-a, complementa-a. Em Tóquio, o Sumida canta uma melodia distinta (o Hudson complementa NI em improvizos jazísticos).



Vista de Kayabacho: ao fundo a Torre de Tóquio.



PS - Obrigado ao meu amigo OBD que me chamou a atenção que o texto publicado (e entretanto corrigido) tinha um clamoroso erro de geografia. Nada desculpa erro tão grosseiro a não ser uma enorme falta de atenção.

17/04/2011


DOMINGO DE VERSOS - Walt Whitman




O Captain! my Captain! our fearful trip is done,
The ship has weather'd every rack, the prize we sought is won,
The port is near, the bells I hear, the people all exulting,
While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring;
But O heart! heart! heart!
O the bleeding drops of red,
Where on the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.

O Captain! my Captain! rise up and hear the bells;
Rise up -- for you the flag is flung -- for you the bugle trills,
For you bouquets and ribbon'd wreaths -- for you the shores a-crowding,
For you they call, the swaying mass, their eager faces turning;
Here Captain! dear father!
This arm beneath your head!
It is some dream that on the deck,
You've fallen cold and dead.

My Captain does not answer, his lips are pale and still,
My father does not feel my arm, he has no pulse nor will,
The ship is anchor'd safe and sound, its voyage closed and done,
From fearful trip the victor ship comes in with object won;
Exult O shores, and ring O bells!
But I with mournful tread,
Walk the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.

15/04/2011

CEREJEIRAS EM FLOR, Sakura (III)

Sakura para todas as idades...

...e para todos os géneros.

No fim do pic-nic, pode-se tocar música...

...ou fazer uma massagem.

14/04/2011

GANDHI WAS GAY? AND WHO CARES?



Num grupo saturado de conversas sobre sismos, tsunamis e nucleares, alguém lançou a pergunta: “what do you think about this new book claiming that Gandhi was gay?” Sentiu-se um gelo muito próximo daquele momento em que o escritório começa a abanar. Colega sentido protestou com uma convicção que ia claramente para além do que o zelo profissional recomendava. De repente ficámos todos a discutir um livro que, por acaso, ninguém tinha lido. Por isso todos os argumentos – sejam em que sentido – perdem razão, lógica e pertinência. Atacar ou defender um livro em que ninguém tocou é um exercício pouco sério mas em que também colaborei naquele momento.

É evidente que, do ponto de vista biográfico, pode fazer sentido defender tal tese (ou o seu inverso), se ela tiver uma sustentação factual séria baseada em documentos. Por isso a discussão, como foi posta entre nós, estava enviezada. O meu ponto na discussão entre uma audiência que nem sabia o nome do autor do livro era: a pergunta que se pode fazer não é “was gandhi gay?”. A pergunta que se deve fazer é “who cares if Gandhi was gay?”.

Além de que, pelo que li em fontes alheias, esse nem é o ponto verdadeiramente controverso do livro. Seja como for, se a Amazon não falhar, 2ª feira já o livro deve cá estar
.

13/04/2011

Cerejeiras em flor, Sakura (II)

O espectáculo deslumbrante que a natureza oferece quando o mês de Abril se instala tem de ser completado por esse outro fenómeno que é a reacção das pessoas perante tal esplendor. Este ano isso é porventura particularmente evidente, devido aos acontecimentos recentes. As festas de "hanami" são explosões de alegria em família ou com amigos, cuja preparação começa dias antes. As lojas enchem-se de kits de pic-nic (cestos, almofadas, cobertas) e o difícil mesmo é encontrar um espaço nos locais privilegiados.

Espaço reservado para o dia 2 de Abril a partir das 9h


Dos cestos saem iguarias exóticas, temperos finos, aromas que nos são distantes. Ou, para os menos afoitos na arte gastronómica, refeições pré-feitas do supermercado.




Como em casa, os sapatos ficam de fora dum espaço que se quer limpo.


Mas há ainda uma outra possibilidade: trazer o fogareiro e fazer a refeição ali mesmo. Aquelas salsichas cheiravam tão bem que quase tive vontade de ir pedir uma...




Esta menina, na foto seguinte, era o único tom dissonante no grande pic-nic do Parque do Uedo. Não pela fatiota, como se poderá apressadamente pensar (não há tons dissonantes em tal matéria), mas porque o bocagiano carão moreno não fazia parte do guião que uma multidão inteira representava.



A sakura é um fenómeno. I love it.

12/04/2011

A velha de chapéu preto que lia Rimbaud


Dia e noite de réplicas (mas eu prometi que não voltaria a este assunto), resgatado com um passeio de meia hora, noite avançada, para arejar e comprar um chocolate (“come chocolates, pequena, come chocolates, olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. Olha que as religiões todas não ensinam mais do que a confeitaria”). Passo em Roppongi e detenho-me por um instante em frente às vidraças do Almond.

(foi a JGC, que aqui viveu há uns anos, quem primeiro me falou do Almond, dizendo que era o ponto de encontro obrigatório da Tóquio dos anos 90)

Era quase meia noite e chovia. Caído o véu de certa hora, as esquinas de Roppongi enchem-se de meninas de generosidade farta e chulos de peso correspondente. Numa mesa encostada ao vidro, de vista debruçada para a rua, uma velha senhora de chapéu preto e flor branca (sakura!), bebericava um chá por uma xícara (a minha Avó dizia sempre xícara, Camilo também, não tem nada de brasileirismo) e lia poemas de Rimbaud em francês. Num pratinho cor-de-rosa, muito japonês, esperava um éclair. A xícara – agarrada com uma elegância que fazia lembrar Sophia – fumegava. Já não me lembro bem, mas acho que o livro de Rimbaud também.

11/04/2011


CEREJEIRAS EM FLOR - SAKURA (I)



Talvez nunca uma sakura tenha sido tão desejada. É mais do que as cerejeiras em flor: nesta Primavera de 2011, representa para os japoneses a vontade de renascer, de começar de novo, quando o país supera (PM Kan dixit), a maior crise desde a 2ª guerra mundial.

Por isso os japoneses reagiram mal quando algumas prefeituras afixaram cartazes nos jardins apelando para que, atento o período que se atravessa, as pessoas se abstivessem de fazer festas de "hanami" (hana=flor; mi=ver). Aviso ignorado. Neste domingo (com o sol a ajudar), milhares de pessoas saíram para as ruas de cestos de pic-nic na mão, estenderam uma coberta e ali ficaram, tempo suspenso, a olhar as filas de cerejeiras.


Obrigado Irene

Nunca umas bolachas me souberam tão bem!


10/04/2011

DOMINGO DE VERSOS - Jorge de Sena



Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas,
os temas, os motivos, os símbolos,
e a primazia nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros,
na coragem de combater, julgar,
de penetrar em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até outros ladrões mais felizes.
Não importa nada:
que o castigo será terrível.
Não só quando vossos netos
não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome.
E mesmo será meu, tido por meu,
contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável que,
só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada:
nem os ossos, que um vosso esqueleto há-de ser buscado, para passar por meu.
E para outros ladrões, iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.

(de Metamorfoses, 1963)


08/04/2011

JULIANO MER-KHAMIS (1958-2011)


Juliano Mer-Khamis era filho de mãe judia e de pai árabe. Era actor e participou em vários filmes (só vi "Tel Aviv Stories"). Em 2006, criou o Teatro da Liberdade onde organizava ateliers de representação com crianças árabes e judias. Foi assassinado com 5 tiros à queima roupa na passada 2ª feira, em Jenin.

Disse numa entrevista: "I'm 100% jew and a 100% arab. Either we live together, or we won't live at all".


As balas mataram Khamis mas não as razões de Khamis.


07/04/2011


Unpredictable unlikely events



As the meeting came to an end, my Spanish colleague and I left the building and were walking on the street. We were speaking about minor things when I saw there was a Japanese man coming in our direction. He was not a typical “salary-man”, as local tradition refers to them. Elegantly dressed and with a firm walk, he was carrying a paper on his left hand and a briefcase on his right, seeming to be looking for something. It is quite normal here to see people on the street – even locals – with a map, trying to spot a place. As those who live here know very well by experience, addresses are not a great help and without a map one risks to be walking endlessly around the neighbourhood.

The man stopped in front of us and, in good “oxfordised” accent, he said: “Excuse me, do you speak English?” After our affirmative answer (I thought he was going to ask for an information), he showed us his papers and said: “Gentlemen, I have an announcement to make”. Weird, I thought. He continued: “Jesus loves you and wants to save you! May I share my thoughts with you?”. We declined his kind offer and continued our walk. A Japanese man in Tokyo tries to convert a Portuguese and a Spanish to Christianity.

Strange world we live in.

(today, a post in English because some foreign friends are protesting about the exclusive use of Portuguese).


06/04/2011

AURELINO SOUSA GOMES - um mistério é sempre um mistério




José Mário Silva revelou (
aqui) há dias, no Festival Literário da Madeira, aquele que é o segredo menos bem guardado do meio literário português: o mito das letras contemporâneas que é Aurelino Sousa Gomes.

Sousa Gomes nasceu no Funchal nos anos 20 do século passado e tem – diz-se – das obras mais prolíficas dos últimos 100 anos em Portugal. Nunca publicou uma linha, pese embora insistências de todos os azimutes. Mantém correspondência com o espanhol Enrique Vila-Matas depois de o ter ameaçado espancar numa ruela de Barcelona. Não se sabe se conserva uma arca pessoana, se queima em noites frias os cadernos que nunca escreveu, se grava textos num gravador antigo ou se, pura e simplesmente, escreve em toalhas de papel de restaurantes de peixe sobranceiros ao mar de Porto Moniz.

Mário Silva conheceu pessoalmente Aurelino Sousa Gomes, que era amigo do seu avô paterno. Não tive tal sorte.

Ouvi pela primeira vez falar de Aurelino no Verão de 1999: cansado da minha tese académica e da prosápia jus-positivista, fugi para a Madeira por quatro dias. Na véspera de regressar a Lisboa, esperei à porta da Sé do Funchal por José Tolentino de Mendonça. Chegou com minutos de atraso para me resgatar ao spleen ilhéu, estando eu ali, encostado à caliça clerical a ler a “Baía dos Tigres”, de Pedro Rosa Mendes. Tolentino levou-me a jantar ao Machico e, à saída do Funchal, passando nós por um casario rasteiro, disse-me: “Naquela casa nasceu o Aurelino Sousa Gomes, conheces?”. Não conhecia, nem o nome me dizia um átimo. O poeta-padre explicou-me então quem era Aurelino, o mito que se criara em torno dele e a diferença imensa face à inevitável comparação com Herberto Helder. Ao contrário de HH, Aurelino recusava obstinada e continuamente publicar, não se lhe conhece uma única fotografia, ninguém do meio literário lusitano alguma vez chegou à fala com ele. E, no entanto, todos já ouviram falar dele, mas em sussuro velado e desmentido.

Curiosamente, acabei por vir ouvir falar de Aurelino Sousa Gomes num final da tarde em Tóquio. Numa recepção social, dessas que se prolongam para lá do que seria a vontade dos anfitriões e que recomendaria o pundonor social, dei por mim à conversa com um professor japonês, lusitanista e académico numa universidade da capital. Embalado por um Porto seco, perguntou-me por Aurelino. Não escondi a surpresa: como era possível que em azimute tão remoto um académico, mesmo estudioso da portugalidade, conhecesse um escritor fantasma? Explicou-me que se tinha doutorado em Coimbra, com uma tese sobre a escrita insular portuguesa. Partira de Antero para chegar a Natália, mas passando também pela Madeira, pelos versos de José Agostinho Baptista e, claro, por Tolentino e Herberto. Concluira que as marcas da insularidade têm traços comuns entre os nossos dois arquipélagos (o mar, o isolamento, a partida) mas dissemelhanças não menos fortes (traços psicológicos mais introspectivos nos Açores; uma maior reconciliação com a ideia de ausência no caso da Madeira). Alongou-se em detalhes para me dizer que tinha passado uma temporada de investigação no Funchal e que tinha recorrido a todos os meios para chegar à fala com Aurelino. Não conseguiu e trouxe consigo essa frustração: diz-me que sente que a sua tese não está acabada por lhe faltar esta palavra que nunca conseguiu arrancar ao escritor que fez da fuga um estilo e uma opção de vida.

Foi sobre este homem mistério que José Mário Silva falou no FLM há dias, trazendo luz sobre um nome que todos admiram mas que ninguém conhece. Falou-se dele por uns dias mas tudo voltará ao mesmo silêncio de sempre. Por agora, José Mário Silva conseguiu algo inédito – recebeu um telegrama de Aurelino, que é, salvo erro, o único mas mesmo o único texto aureliano que alguma vez viu a luz do dia. Pode ser lido
aqui.


(desenho de Pedro Vieira)


05/04/2011


La musique do orgasmo


Quando Reiko entra no consultório do dr. Shiomi, em Ginza, diz-lhe: “Docteur, comment expliquer cela? Je n’entends pas la musique.” O psiquiatra não esconde ao leitor a sua estupefacção. “Que voulait–elle dire par là?”. Desfiando as horas, o dr. Shiomi estuda a paciente, decanta o seu passado como quem trata de um vinho raro, cuida das palavras e dos silêncios, dos ditos e dos não ditos. O mais difícil é separar a verdade da mentira (onde está a fronteira entre uma e outra? E onde está a fronteira, não da verdade em si, mas do próprio conceito de verdade?), e perceber que, numa mulher esgarçada como Reiko, a linha é ténue e os castelos fantasistas são caminhos reveladores de uma luz que, porventura, está ausente do tempo que forra os dias. As mentiras (mentiras?) de Reiko encadeiam-se com uma perfeição assustadora e chegam a baralhar o próprio leitor.


Não leva muito tempo até que Shiomo perceba o que Reiko quer dizer – ela é, afinal, incapaz do prazer sexual, incapaz de ter um orgasmo ou até simplesmente de verbalizar a palavra. O médico trilha clinicamente a hipótese de uma histeria freudiana (são curiosas as referências fortes a uma tradição clínica puramente ocidental) mas que abandona por perceber que Reiko é um caso para além dos manuais de escola. Reiko corporiza “le mépris (…) pour l’être humain”. É nesse divórcio dissimulado que Shiomo vai encontrar a chave de compreensão dos fantasmas que afligem Reiko.


La Musique é um romance pouco conhecido de Yukio Mishima (não está traduzido em português) e temperado por um humor cínico (os cínicos diriam: sórdido) que o singulariza no conjunto da sua obra. Não respira como um livro: flana como uma sonata que vive do virtuosismo melódico do compositor. Só Mishima dava conta de tal andamento.


[foi a MJB que me falou deste livro, que citou na defesa da tese de doutoramento a propósito de “disfuncionalidades comunicativas” e que o CD comprou na Filigranes de Bruxelas, “entre a biografia do Rei Balduíno e um pastel de Tentúgal” (sic) e me enviou, a meu pedido. Obrigado aos dois].


04/04/2011

03/04/2011

DOMINGO DE VERSOS - Manuel Maria Barreiros



Se esta noite passar um cometa, ainda pedirás um desejo?


Manuel Maria Barreiros, in aqueles que têm os ossos frágeis


02/04/2011

01/04/2011


Estrada para andar (e ponto final nos posts sobre o sismo)


(salvo acontecimentos supervenientes ou alguma coisa digna de registo, este é o último desta série de posts sobre o sismo de 11 de Março. A vida continua e este blog também.)

Há dias dei por mim a pensar nisto: os portugueses chegaram ao Japão em 1543, faz por agora 468 anos. É muito ano, dir-se-ia, quando na verdade é um instante se tivermos das coisas aquela perspectiva sábia que têm os magos orientais que diziam preferir não opinar sobre a revolução francesa porque tinha sido há muito pouco tempo. Quase 5 séculos por aqui e o que me ocorreu pensar foi: é preciso azar para estar aqui justamente quando no Japão ocorre o pior sismo de sempre e o quinto pior sismo da história, desde que há registos. Mas não adianta deter-me nestas elucubrações: feliz por as fazer sentado na tranquilidade do meu sofá. Três semanas depois, os dias correm velozes, Tóquio regurgita, multidões circulam, entoam-se cantos e proclamam-se juras, voam gestos e olha-se para trás concluindo que foi preciso isto, foi preciso este passo, porventura duro, para, como o poeta-engenheiro-decadentista-e-futurista-às-vezes, “sentir tudo de todas as maneiras”. Viver o inesperado, caminhar sobre um chão de que me aproprio, ser espectador e testemunha de dias que trazem sofrimentos indizíveis sabendo que só isso, só mesmo isso, pode, por mais paradoxal que pareça, ser peça clarificadora para a leitura do esplendor do mundo.