Mostrar mensagens com a etiqueta Japão: literatura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Japão: literatura. Mostrar todas as mensagens

20/04/2011


"MASS" CULTURE - I, a manga

Costuma aqui dizer-se, com muito exagero de simplificação, que o Japão contemporâneo vive a "MASS culture", a cultura da Manga, Anime, Sushi e Sashimi.

A manga - ou banda desenhada - é uma tradição muito antiga, que se julga remontar ao século VIII. Era, na altura, uma compilação de paisagens e desenhos da natureza, evoluindo depois para retratos simplificados de pessoas ou manuais de guerra.

Foi a partir do início do século XX, dizem os estudiosos que por influência americana, que começaram a ser publicados os álbuns com "estórias" que se foram espalhando e popularizando, algumas vezes cumprindo funções de propaganda política mas sempre atraindo número enorme de leitores.


Loja de manga em Tóquio

Hoje a manga é uma indústria em larga escala, movimentando cerca de 3 mil milhões de euros por ano e constituindo valência nobre das editoras. A mais famosa revista de manga é editada pela Shueisha, que é o equivalente à portuguesa Leya.

Há estilos variadíssimos de manga, sublinhando os seus críticos que têm como traço comum um tom de permanente violência e uma esteriotipização do papel dos sexos. Mas isso não impede de ser um fenómeno global, exportável e inseparável da cultura japonesa. Qualquer loja de conveniência tem um canto onde vende revistas manga e à hora de almoço é normal ver-se clientes que se amontoam para ver as novidades.

Ao domingo à tarde, o fenómeno ganha vida real e pelo Parque Yoyogi e por Harajuku os leitores mais vidrados - homens e mulheres - mascaram-se com os trajes do seu personagem favorito e passeiam tranquilamente em Omotesando. Como se não houvesse amanhã.

19/04/2011


PORTO SEGURO




Entre um sobressalto geológico e outro, voo entre a elegância da estética onde não me revejo muito mas que reconheço finíssima de Carlos de Oliveira em "Uma Abelha na Chuva" ("Um instinto profundo, a que não dava nome, avisava D. Cláudia de que em tudo havia uma crueza que era melhor não desvendar."), a escrita menos japonesa que um japonês já produziu de Kenzaburo Oe em "The Changeling" ("What?, the teacher spluttered indignantly, Which ancient book did you find that foolishness in? How was it phrased in classical Japanese?") e o neorealismo urbano de José Rodrigues Miguéis em "A Escola do Paraíso" ("O toucador da Miquelina: espelhos, mármores, castiçais e metais doirados, vermeil (pechisbeque, no dizer da mãezinha), esmaltes com bosques, ninfas e pastores, frasquinhos e atomizadores com a borrachinha envolta numa rede de retrós, e as borlas de pó de arroz, tufadas, frescas, leves como espumas"). Valter Hugo Mãe está à espreita e Toni Morrison já bateu à porta.

Vou assim, como num livro à deriva em busca de porto seguro. Os livros nunca me falharam.


05/04/2011


La musique do orgasmo


Quando Reiko entra no consultório do dr. Shiomi, em Ginza, diz-lhe: “Docteur, comment expliquer cela? Je n’entends pas la musique.” O psiquiatra não esconde ao leitor a sua estupefacção. “Que voulait–elle dire par là?”. Desfiando as horas, o dr. Shiomi estuda a paciente, decanta o seu passado como quem trata de um vinho raro, cuida das palavras e dos silêncios, dos ditos e dos não ditos. O mais difícil é separar a verdade da mentira (onde está a fronteira entre uma e outra? E onde está a fronteira, não da verdade em si, mas do próprio conceito de verdade?), e perceber que, numa mulher esgarçada como Reiko, a linha é ténue e os castelos fantasistas são caminhos reveladores de uma luz que, porventura, está ausente do tempo que forra os dias. As mentiras (mentiras?) de Reiko encadeiam-se com uma perfeição assustadora e chegam a baralhar o próprio leitor.


Não leva muito tempo até que Shiomo perceba o que Reiko quer dizer – ela é, afinal, incapaz do prazer sexual, incapaz de ter um orgasmo ou até simplesmente de verbalizar a palavra. O médico trilha clinicamente a hipótese de uma histeria freudiana (são curiosas as referências fortes a uma tradição clínica puramente ocidental) mas que abandona por perceber que Reiko é um caso para além dos manuais de escola. Reiko corporiza “le mépris (…) pour l’être humain”. É nesse divórcio dissimulado que Shiomo vai encontrar a chave de compreensão dos fantasmas que afligem Reiko.


La Musique é um romance pouco conhecido de Yukio Mishima (não está traduzido em português) e temperado por um humor cínico (os cínicos diriam: sórdido) que o singulariza no conjunto da sua obra. Não respira como um livro: flana como uma sonata que vive do virtuosismo melódico do compositor. Só Mishima dava conta de tal andamento.


[foi a MJB que me falou deste livro, que citou na defesa da tese de doutoramento a propósito de “disfuncionalidades comunicativas” e que o CD comprou na Filigranes de Bruxelas, “entre a biografia do Rei Balduíno e um pastel de Tentúgal” (sic) e me enviou, a meu pedido. Obrigado aos dois].


25/02/2011

Tratado em que se contêm muito sucintamente e abreviadamente algumas contradições e diferenças de costumes entre a gente da Europa e desta província do Japão



Os quase 5 séculos de presença portuguesa no Japão são, em primeiro lugar, tributários dos jesuítas. Estes 500 anos são marcados por homens notabilíssimos que, sendo missionários, aqui aportaram trazendo a cruz numa mão e a fineza de espírito e o cosmopolitismo na outra. Esta semana, li um livro de um deles, Luís Fróis que, em 1585 conclui o Tratado em que se contêm muito sucintamente e abreviadamente algumas contradições e diferenças de costumes entre a gente da Europa e desta província do Japão.

Fróis nasceu em Lisboa em 1532 e chegou ao Japão em 1562, onde viveu até 1597, ano em que morreu em Nagasáqui. O livro, notável, que assinou durante a sua estada, foi reeditado em 2001 pelo Instituto Português do Oriente. Não pode ser lido, nos dias de hoje, como qualquer esboço de tipo antropológico mas é um documento precioso para compreendermos os homens de quinhentos: os de Portugal e os desta província do Japão, o modo como uns e outros se olhavam, as desconfianças mútuas e as ligações que se estabeleciam, quer as baseadas na compreensão, quer as da incompreensão.

O livro está dividido em 14 capítulos temáticos: os homens, as mulheres, as crianças, os religiosos, os templos, a comida, as armas, os cavalos, as doenças, a escrita, as casas, os barcos, os autos e os "extras". Ao longo de centenas de pontos, Fróis compara com detalhe os modos de europeus e "japões".

Alguns exemplos:

"Entre nós a gente lava o corpo em suas casas muito escondidos; em Japão homens e mulheres e bonzos em banhos públicos ou à noite às suas portas.

(...)

Em Europa ordinariamente as mulheres fazem de comer; em Japão o fazem os homens, e os fidalgos têm por primor ir fazê-lo à cozinha.

(...)

Onde as derradeiras folhas de nossos livros de acabam, ali começam os deles".

13/02/2011


Domingo de versos - Issa Kobayashi



Neste mundo
por cima do inferno
contemplo as flores

Issa Kobayashi
(poeta japonês 1763 - 1827)

07/02/2011


4 horas de Teatro Noh



Há uns meses, uma japonesa culta e viajada perguntou-me o que eu achava do teatro noh. Na altura respondi que ainda nunca tinha visto uma peça noh mas do que conhecia, ma parecia uma estética muito interessante, totalmente diversa do teatro ocidental e, por isso, desafiante mesmo se difícil para um europeu. Ela não esteve com meias medidas: "I just think it is very boring!".

Um destes dias fui ao noh - 4 horas de teatro. Como é de tradição, um ciclo de 3 peças, duas de noh (sério, pesado, estilizado, profundo) com uma peça kyogen pelo meio (uma rábula semi-revisteira, de humor e sátira social). À entrada, recebi uma folha com explicações em inglês que não eram muito reconfortantes: "The noh is very difficult to understand. It is better to see it as an artistic presentation of dance and music". Que é como quem diz: não se cansem muito e desfrutem como puderem.

A verdade é que um europeu não pode perceber o noh. Não pode apreciar uma estética para o qual não foi educado. Como não se espera que um taxista de Londres que nos leva para a New Tate disserte sobre Rothko ou que um vendedor de frutas em Berlim entreleia a erotica romana do Goethe, um ocidental - pelas mesmas razões - não pode "ler" o teatro noh. Pode até fazer várias leituras: a beleza do guarda-roupa, a originalidade do timbre musical, a particularidade do ritmo cénico. Os intelectualmente mais afoitos lembrar-se-ão das lições de Tanizaki sobre o confronto entre a luz e a sombra no Ocidente/ Oriente. Ou eventualmente de Eliade quando fala da abstração religiosa no xintoísmo. Mas isso é o máximo onde pudemos chegar: um gaijin será sempre um gaijin - alguém que vem de fora, um bárbaro do sul ou do norte, incapaz de perceber um mundo que não é seu por mais admiração que por ele possa nutrir.

01/02/2011


QUIOTO: Gion vs. Pontocho, ou a importância das geixas



- Terá de esperar pelo menos três anos... Além disso, Chi-Chan vai para Pontocho no ano que vem.
- Para Pontocho? Mas porquê?
- Quer ser maiko. Está doida por isso.
- Se quer ser aluna de gueixa, não será melhor Gion?
E no seu íntimo olhava-a convencido de que aquela rapariga, fosse para Gion ou para qualquer outro lado, se tornaria numa maiko de grande classe.

Quioto, de Yasunary Kawabata (edição portuguesa na D. Quioxote)

Comprei há dias um tijolão de quase um milhar de páginas que explica tudo o que alguém pode querer saber sobre o fascinante, misterioso e requintadíssimo mundo das gueixas. Mas na contra-capa de uma edição americana faz-se a advertência: só espíritos apressados e ignorantes (leia-se europeus, numa matriz conceptual que agora não vale a pena desenvolver) pensam que gueixas são prostitutas finas. Nada disso: gueixas são, na tradição japonesa, senhoras de educação esmeradíssima que fazem companhia aos homens, conversam durante um jantar e cantam ou representam as artes tradicionais.

Difícil para um ocidental perceber isso? Será. Mas é sempre bom lembrar, como Shakespeare dizia a Horácio, que há mais coisas no céu e na terra do que a nossa vã filosofia pode imaginar. Japão incluído.

(foto de uma gueixa em Pontocho/ Quioto)

28/01/2011


O PAVIMENTO DE NEVE



Quando visitaram a casa, no velho quarteirão da cidade, encontraram Shirikawa já morto de fome, no seu quarto de dormir. O apartamento tinha ainda dois outros aposentos. Ambos sem mobília. No primeiro, estavam apenas três cadeiras negras, de tipo europeu, encostadas à janela, como se alguém estivesse disposto a contar, pela janela, as mil folhas do plátano. Depois percebeu-se que as cadeiras eram dos três magríssimos gatos, companheiros do velho. Na terceira sala, o pavimento apresentava-se coberto por um manto de arroz muito branco. Shirikawa nascera em Chichibu, uma aldeia do Norte do Japão. Desde jovem, durante a procissão para a queda das primeiras neves, tocava um pequeno ko-daiko*.
Porque será que Shirikawa, possuindo todo aquele arroz, se deixara morrer de fome?
Quando o levaram com a liteira, alguém experimentou deitar-se na cama, até assumir a posição exacta do morto. Com a cabeça pousada sobre o travesseiro, para além do corredor, viu o quarto com o pavimento de arroz. Saboreou a doce contemplação da neve pousada, e até a cor de cinza da parede do fundo parecia inverter-se para formar um céu frio e invernal.
Depois de longa investigação no quarteirão, descobriu-se que Shirikawa, desde há alguns anos, sofria com saudades da neve. Aquele era um lugar onde nunca nevava.

* Pequeno instrumento de percussão muito usado no Japão

Tonino Guerra, Histórias para uma noite de calmaria

(lido há muitos anos, quando nem sonhava com o Japão, e recordado esta semana via
Bibliotecário de Babel)

27/01/2011


50 anos no Japão



A imagem acima é a capa do dicionário japonês - português que comprei a semana passada. Naquelas páginas estão mais de duas décadas de trabalho árduo, intenso, generoso e dedicado. É o projecto de uma vida do Padre Jaime Coelho, jesuíta, há 50 anos no Japão, investigador, filólogo e antigo professor da Universidade Sofia de Tóquio. O Padre Jaime Coelho trabalha agora na versão português - japonês, que esperamos possa estar nas bancas rapidamente.

O autor, com quem tive o gosto de almoçar a semana passada - espero que ele me perdoe a inconfindência da agenda - é um testemunho vivo do último meio século das relações entre os dois países e fala com a vivacidade de um jovem e com a inteligência sólida de um jesuíta. Um gosto.

21/01/2011


Quioto: o Templo Dourado






"O Templo Dourado é uma construção de dois andares, dominando o lago - dito «Espelho de Água» - de um jardim. Pensa-se que foi acabado em 1398, quinto ano da época Oei. O arquitecto do rés-do-chão e do primeiro andar é do tipo doméstico «Shinden» com persianas de baixar. O segundo andar é uma sala de cinco a seis metros quadrados, no mais puro estilo Zen, com uma porta central de almofada e cruzetas, e janelas de florões de ambos os lados. O telhado é em ripas de ciprestes. É do tipo «Hokei», encimado por uma fénix em bronze dourado.



Igual à lua no céu noctrino, o Templo Dourado fora edificado como símbolo do tempo das trevas. Por isso era indispensável que o templo do meu sonho se erguesse dum fundo de noite densa - uma noite que o encerrasse de todos os lados. E dentro dessa noite negra, a textura de esplêndidas e esbeltas colunas repousava, calma, serena, levemente iluminada do interior. Quaisquer que fossem os discursos que lhe pudessem dirigir, era necessário que o templo maravilhoso continuasse a oferecer silenciosamente a todos os olhares a sua delicada arquitectura, e a sofrer o assalto das trevas circundantes.


Pensei também no fénix de ouro que no alto do telhado ficara, anos e anos, exposto às intempéries. O misterioso pássaro, de nunca anunciar o raiar do dia, de nunca bater asas, deveria ter-se esquecido de quem era.




Quando o meu pensamento se libertava, o Templo Dourado surgia-me como um magnífico navio atravessando o oceano dos tempos."

Yukio Mishima, O Templo Dourado

(à atenção de eventuais visitantes: ler "O Templo Dourado" de Mishima é obrigatório antes de vir ao Japão. Existe uma edição da Assírio mas a tradução é má. Podendo, é melhor ler as traduções inglesa ou francesa. Não sei o que vos diga sobre o Templo Dourado a não ser que é um espanto radical e absoluto. Mas como as citações - esse amor despudorado pelas palavras - existem como sinal de humildade (e não de arrogância como pensam alguns), deixo-vos com o Mishima. Não podiam aliás, literariamente falando, ficar em melhor companhia).

20/01/2011

Silêncio, de Shusaku Endo



Correndo o ano da graça de 1636, Roma e Lisboa recebem, com incredibilidade, a notícia que o Padre Cristóvão Ferreira, jesuíta devoto e pregador exemplar, tinha negado a fé cristã, lá longe, em Nagasáqui, onde exercia o mister de Cristo. Amigos e discípulos lembravam o fervor do clérigo e recusaram-se aceitar que Ferreira tivesse soçobrado na crença perante um Japão adverso e budista. O Padre Sebastião Rodrigues, ex-pupilo de Ferreira, parte em busca do antigo mestre, vencendo marés e adversidades e aporta em Macau antes de prosseguir para essa terra estranha, ilha grande para lá da China, como dissera Marco Pólo.

Continuar a ler a minha recensão
aqui.

10/01/2011


A livraria Keibunsya, em Quioto (nº 9 da top list do "Guardian")



Vários comboios depois, cheguei finalmente à livraria Keibunsya, em Quioto, que a célebre lista do Guardian considerou uma das melhores livrarias do mundo (e de onde também faz parte a portuense Lello e a bruxelense Posada). A primeira causa de espanto é como é que alguém se lembrou desta livraria dado o "ultra-periferismo" de que padece. Convenhamos: não só Quioto não é ao virar da esquina como, ainda por cima, a Keibunsya fica longe do centro da cidade, fora de mão e no meio de uma área residencial relativamente desinteressante.

Mas talvez isso torne a Keibunsya ainda mais atractiva: porque é um oásis de claridade no que pode ser considerado, do ponto de vista urbano, como um bairro acinzentado. Porque desafia o isolamento e insiste em mostrar a força da criatividade onde ela se julgava não poder habitar. A Keibunsya não é apenas uma livraria: tem uma galeria onde expõe trabalhos de jovens artistas, tem uma "corner-shop" de design que recupera linguagens mais tradicionais e tem um mobiliário retro que transporta o visitante para calendários distantes.

Claro que este exercício do Guardian vale o que vale (pouco mais do que nada) e qualquer inclusão ou exclusão pode ser discutida à saciedade. O Lonely Planet acaba de fazer também a sua lista do top-10 onde a Keibunsya não consta (mas de onde não se atreveram a tirar a Lello mesmo se a lista do LP é mais euro-cêntrica do que a do Guardian). Por mim confesso que não poria a Keibunsya na minha lista do top-10 mundial mas nem por isso a achei um lugar de peregrinação dispensável (sobretudo quando se anda por azimutes orientais).

É verdade que praticamente não tem livros a não ser em japonês mas um amante de livros - e de livrarias - sabe que isso é pouco relevante quando o objectivo é menos comprar livros e mais sentir o cheiro do pó que assenta, magnânime, em páginas para cujas palavras não chega a olhar.




02/12/2010

40 anos da morte de Yukio Mishima - razões de um esquecimento



"If the world changed, I could not exist, and if I changed, the world could not exist."

Yukio Mishima,
The Temple of the Golden Pavillion

A semana passada passaram 40 anos sobre a morte de Yukio Mishima. À excepção de uma livraria em Tóquio com uma boa secção em inglês (a Maruzen de Nihombashi), nenhuma outra assinalou de forma significativa o acontecimento na capital. De igual modo, a generalidade dos agentes culturais ficou mais ou menos indiferente e a imprensa também (na imprensa japonesa em japonês não houve qualquer referência e na imprensa japonesa em inglês só o Japan Times trouxe uma notícia justamente sublinhando o silêncio). E, no entanto, Mishima é um dos mais importantes escritores japoneses do século XX, amplamente traduzido (nomeadamente em Portugal) e por diversas vezes potencial vencedor ao Nobel.

Porquê este silêncio?

(Continuar a ler
aqui).

06/11/2010

Lafcadio Hearn, estranheza e charme

"Ao primeiro encontro, a aparente estranheza das coisas no Japao produz (em certas mentes, pelo menos) um arrebatamento singular, impossível de descrever - uma sensação insólita que so nos aborda na percepção do que nos e totalmente desconhecido. Ficamos estupefactos ao descobrir que não conseguimos sequer conceber o uso e o significado das coisas expostas nas lojas. Produtos alimentícios de proveniências inimagináveis; utensílios com formas enigmáticas; emblemas incompreensiveis de alguma crença misteriosa; mascaras e brinquedos estranhos que evocam as lendas de deuses e demónios; e também imagens bizarras dos próprios deuses, com orelhas monstruosas e faces ridentes - tudo isto se aprende ao longo do mesmo passeio. Quando perceberes, ao fim de vinte anos, que és de todo incapaz de entender os japoneses, nessa altura terás começado a perceber alguma coisa deles."

Lafcadio Hearn, O Japao - uma antologia de escritos sobre o pais

Enviado do meu iPhone

28/09/2010

Yasunari Kawabata: a mulher e o sexo



"Kikuji sentia-se como estando a possuir uma mulher pela primeira vez, ao mesmo tempo que se apossava dele a sensação se estar a realizar como um verdadeiro homem. Era um extraorinário despertar dos sentidos. Ele nunca poderia ter imaginado que uma mulher pudesse ser assim tão dada e receptiva. Kikuji correspondia à sua plena oferta, de todo seduzido - e cada vez mais se inebriava no perfume daquele corpo quente..."

Yasunari Kawabata, Chá e Amor (há outra tradução em que o título é "Mil Grous")

Este livro de Kawabata (e outros, como o de Tanikazi que referi há dias) ou algum cinema japonês que conheço (o que é muito pouco), como o de Kurosawa (por exemplo, "Tokyo Sonata") ou de Takeshi Kitano (por exemplo, o fortíssimo "Dolls"), levam-me a pensar sobre um assunto que, quer-me parecer, aqui tem importância imensa: os papéis sociais do homem/ mulher (na forma como são sociologicamente apreendidos, para lá de qualquer juízo apriorístico ocidental). Essa auto-percepção, pela sociedade japonesa, parece estar muito mais enraízada do que na Europa e a estanquicidade não conhece brechas. Uma forma onde isso se manifesta de modo pungente é na sexualidade (e também aqui, no modo como são percebidos os papéis de uns e outros), muito em particular no modo como a arte a retrata. Aí, no campo ficcional, literário ou cinematográfico, há um grito matriarcal de força, como se o gineceu não pudesse mais calar-se.

É preciso tudo ver para tudo almejar compreender.

26/09/2010

WENCESLAU DE MORAES, O PIONEIRO



"Tokushima, 14 de Dezembro de 1917

Eu mal já posso avaliar, pela grande distância e pela longa ausência, como as coisas vão indo na nossa terra. Mas inclino-me inteiramente para a sua opinião, e acho revoluções demais e heróis demais, e absoluta falta de juízo dos dirigentes e do povo. Creio que vamos indo muito mal, e ainda por cima com a ameaça de perdermos todas as nossas colónias, e até os Açores! A que estará reduzido o nosso país daqui a 20 ou 30 anos? Vê-lo-á V. Exa; eu não.(...)

Criado atento e obrigado

Wenceslau de Moraes".

Wenceslau de Moraes, Cartas do Extremo Oriente

25/09/2010


JUNICHIRO TANIZAKI



"Tudo se passou como eu previra. Tirei do corpo de minha mulher tudo o que se lhe tinha vestido e deitei-a de costas, numa nudez total, sob a luz do candeeiro. Pus-me então a estudar os pormenores deste corpo, como se estudasse um mapa. Quando me encontrei perante este corpo nu, esplêndido, imaculado, fiquei, antes de mais assombrado. É que via, assim, pela primeira vez, o corpo de minha mulher."

Junichiro Tanizaki, A Confissão impúdica