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19/05/2011


O QUE É QUE O MATEUS TEM?




Podemos desprezá-lo olimpicamente mas é um campeão: no supermercado toquioita da minha rua, além do clássico Porto e do aqui popularíssimo Madeira, o único vinho português que tem direito a prateleira permanente é o da garrafinha bojuda do Mateus Rosé. Saddam bebia-o nos marmóreos palácios de Bagdad e os contentores mercantes cruzam mares levando este vinho aos mais remotos cantos do planeta. Mas nós, palato refinado por excursões parisieneses, recusamo-nos a consumi-lo dentro de portas.

Quando, em certa ocasião, tive para jantar em casa um grupo de colegas estrangeiros, chegado o momento de fazer de escanção e de perorar em defesa da rolha de cortiça, um dos convivas atalhou: Are you serving us the famous Portuguese Mateus Rosé? Pois não ia e fiquei descoroçoado. Mas agora já sei onde se pode comprar. Da próxima vez, levam com ele.


17/05/2011


LECTURES IN HIROSHIMA


At the entrance of Hiroshima High School with the Vice-Principal. In the framework of Europe's Day, I came to this school to speak to 500 students about the European Union. The students were very interested, very well prepared and very active. After my lecture, we had a Q&A period of 30 minutes and we had to stop because I had to run to catch the train back to Tokyo. They wanted to know about the "freedoms", the common currency and the European Parliament. On the previous day, I had been to Hofu Commercial School (Yamaguchi Prefecture), where I spoke to another group of 480 students. Also here, I was amazed by the interest and commitment shown by Japanese students and teachers.








01/04/2011


Estrada para andar (e ponto final nos posts sobre o sismo)


(salvo acontecimentos supervenientes ou alguma coisa digna de registo, este é o último desta série de posts sobre o sismo de 11 de Março. A vida continua e este blog também.)

Há dias dei por mim a pensar nisto: os portugueses chegaram ao Japão em 1543, faz por agora 468 anos. É muito ano, dir-se-ia, quando na verdade é um instante se tivermos das coisas aquela perspectiva sábia que têm os magos orientais que diziam preferir não opinar sobre a revolução francesa porque tinha sido há muito pouco tempo. Quase 5 séculos por aqui e o que me ocorreu pensar foi: é preciso azar para estar aqui justamente quando no Japão ocorre o pior sismo de sempre e o quinto pior sismo da história, desde que há registos. Mas não adianta deter-me nestas elucubrações: feliz por as fazer sentado na tranquilidade do meu sofá. Três semanas depois, os dias correm velozes, Tóquio regurgita, multidões circulam, entoam-se cantos e proclamam-se juras, voam gestos e olha-se para trás concluindo que foi preciso isto, foi preciso este passo, porventura duro, para, como o poeta-engenheiro-decadentista-e-futurista-às-vezes, “sentir tudo de todas as maneiras”. Viver o inesperado, caminhar sobre um chão de que me aproprio, ser espectador e testemunha de dias que trazem sofrimentos indizíveis sabendo que só isso, só mesmo isso, pode, por mais paradoxal que pareça, ser peça clarificadora para a leitura do esplendor do mundo.


03/02/2011


Ir ao IKEA no Japão



Há uma genial crónica do Ricardo Araújo Pereira onde ele se interroga se o IKEA vende móveis baratos ou puzzles caros (ler aqui, que vale a pena). Partilho da angústia fedorenta e entrar no IKEA dá-me um nervoso miudinho: acho que aquilo só é simples para os outros, as instruções irritam-me com aqueles bonequinhos gordos e o cheiro da molhenga nos restaurantes enjoa-me. Mas reconheço que para quem, como eu, anda pelo mundo com a casa às costas, aquele infernozinho sueco dá algum jeito.

Assim foi: depois de ter galgado lojas e armazéns; subido e descido intermináveis 'kus' (calma, calma: ku=freguesia em palato local), eis que o IKEA me resolveu o já velhinho problema da montagem da cortina do duche. Acabaram-se as inundações na casa de banho. E, para quem se lembra de post anterior, aqui nem foi preciso recorrer à mímica...


31/01/2011


Abertura da Sessão Legislativa na Dieta



Estive a semana passada na Dieta para a cerimónia de abertura da 177ª Sessão da Dieta (o parlamento japonês). Uma cerimónia impressionante que leva a rigor um ritual performativo pensado ao segundo e onde, salvo os partidos da extrema-esquerda, se sente interiorizado o respeito por um conceito de soberania que passa, quase exclusivamente, pela figura do Imperador ("a soberania una e indivisível que reside no povo" é invenção das cabeças não decapitadas na comuna de Paris...).

Sentado nas galerias, onde estão os convidados, não deixa o visitante de se impressionar - e muito - com a imagem de ver 480 deputados e uma vintena de governantes vestidos a rigor (eles de fraque; elas de quimono) que, ao soar da batida, se levantam e se inclinam naquela vénia vincadíssima que se reserva para o Chefe de Estado. O Imperador Akihito entra na grande sala da Câmara dos Representantes e, passos pequenos, dirige-se para o trono imperial perante meio milhar de súbditos que não mexem um músculo perante alguém que, há pouco mais de 60 anos, se cria que tinha um poder directamente transmitido por deus.

A cerimónia dura exactamente 7 minutos: um minuto de vénias; dois minutos de discurso do speaker; três minutos de discurso do Imperador e um minuto final de mais vénias e saída.

Durante aqueles minutos sagrados da liturgia democrática, quase se ouve o palpitar dos corações presentes tal é o silêncio que só a oratória imperial e o disparar das máquinas fotográficas interrompe.

27/01/2011


50 anos no Japão



A imagem acima é a capa do dicionário japonês - português que comprei a semana passada. Naquelas páginas estão mais de duas décadas de trabalho árduo, intenso, generoso e dedicado. É o projecto de uma vida do Padre Jaime Coelho, jesuíta, há 50 anos no Japão, investigador, filólogo e antigo professor da Universidade Sofia de Tóquio. O Padre Jaime Coelho trabalha agora na versão português - japonês, que esperamos possa estar nas bancas rapidamente.

O autor, com quem tive o gosto de almoçar a semana passada - espero que ele me perdoe a inconfindência da agenda - é um testemunho vivo do último meio século das relações entre os dois países e fala com a vivacidade de um jovem e com a inteligência sólida de um jesuíta. Um gosto.

22/12/2010

A LITURGIA MULTILATERAL



Padres por esse mundo fora enceram os soalhos dos templos, puxam o brilho à talha dourada e preparam-se para queimar o incenso em vésperas da noite em que todos assolam à igreja, mesmo aqueles que passam ao largo o ano inteiro. Eu já tive a minha dose de liturgia adventícia, com 48 horas fechado numa sala de reuniões a discutir o futuro de não importa agora o quê. Já tinha saudades: noite dentro a fazer drafting, pausas para consultas em cada duas horas, delegados a dormir nos corredores, doses reforçadas de café, computadores que projectam textos enormes até inexplicavelmente deixarem de funcionar, intérpretes com horários incompatíveis com a música que aqui se baila, secretariado a fazer milhões de fotocópias de drafts que acabarão no lixo, desfolhar de calhamaços à procura de agreed language, dramas, ameaças e crescendo de tensão. Até tudo acabar bem, numa sessão plenária cuja hora nunca tem nada a ver com o inicialmente previsto. Há todo um rito a cumprir para subir a este quase-Golgota. Esta minha vida começou no multilateral e parece mesmo que não há amor como o primeiro.

05/11/2010

Cenas da vida diplomática - lições de uma vida errante


Dentro de dias recebo um contentor com 180 caixotes: são as minhas coisas que andaram pelo mundo, em viagem de circum-navegação. Despedi-me delas em Bruxelas, em meados de Julho, vi partir a minha vida, encaixotada por quatro homens de fato-macaco, num camião TIR a transbordar. Agora, se tudo correu bem, o que é meu volta a mim, nessa ternura dócil do reencontro.

Durante cerca de quatro meses vivi reduzido a duas malas de roupa, um porta fatos e um computador portátil, andando de cama em cama por vários quartos de hotel. Era pouco? Era. Mas era suficiente. Passei provações? Não, se exceptuarmos que já estou um pouco farto de usar sempre as mesmas camisas e as mesmas gravatas (e os mesmos pólos de fim de semana). Mas isso não pode deixar de me fazer pensar que os objectos que acumulamos na vida servem afinal para muito pouco e são, em grande medida, supérfluos. Pode-se viver reduzido à essencialidade do que cabe num quarto de hotel. Mas dito isto, estou desejoso de me sentar no meu sofá, a olhar para a minha Helena Almeida, a ouvir o meu Requiem e a beber o meu gin tónico. A vida tal como ela é.