DOMINGO DE VERSOS - Teixeira de Pascoaes

Portugal é a Paisagem e a Saudade.

Camilo Castelo Branco, A Queda dum Anjo

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão
Porque os outros se calam mas tu não
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo
Porque os outros são hábeis mas tu não
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de Mello Breyner

(clicar na imagem para aumentar e ver melhor)

Já no largo Oceano navegavam,
As inquietas ondas apartando;
Os ventos brandamente respiravam,
Das naus as velas côncavas inchando;
Da branca escuma os mares se mostravam
Cobertos, onde as proas vão cortando
As marítimas águas consagradas,
Que do gado de Proteu são cortadas
Luis Vaz de Camões, Os Lusíadas, Canto I, estrofe 19
Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas,
os temas, os motivos, os símbolos,
e a primazia nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros,
na coragem de combater, julgar,
de penetrar em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até outros ladrões mais felizes.
Não importa nada:
que o castigo será terrível.
Não só quando vossos netos
não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome.
E mesmo será meu, tido por meu,
contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável que,
só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada:
nem os ossos, que um vosso esqueleto há-de ser buscado, para passar por meu.
E para outros ladrões, iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.
(de Metamorfoses, 1963)
José Mário Silva revelou (aqui) há dias, no Festival Literário da Madeira, aquele que é o segredo menos bem guardado do meio literário português: o mito das letras contemporâneas que é Aurelino Sousa Gomes.
Sousa Gomes nasceu no Funchal nos anos 20 do século passado e tem – diz-se – das obras mais prolíficas dos últimos 100 anos em Portugal. Nunca publicou uma linha, pese embora insistências de todos os azimutes. Mantém correspondência com o espanhol Enrique Vila-Matas depois de o ter ameaçado espancar numa ruela de Barcelona. Não se sabe se conserva uma arca pessoana, se queima em noites frias os cadernos que nunca escreveu, se grava textos num gravador antigo ou se, pura e simplesmente, escreve em toalhas de papel de restaurantes de peixe sobranceiros ao mar de Porto Moniz.
Mário Silva conheceu pessoalmente Aurelino Sousa Gomes, que era amigo do seu avô paterno. Não tive tal sorte.
Ouvi pela primeira vez falar de Aurelino no Verão de 1999: cansado da minha tese académica e da prosápia jus-positivista, fugi para a Madeira por quatro dias. Na véspera de regressar a Lisboa, esperei à porta da Sé do Funchal por José Tolentino de Mendonça. Chegou com minutos de atraso para me resgatar ao spleen ilhéu, estando eu ali, encostado à caliça clerical a ler a “Baía dos Tigres”, de Pedro Rosa Mendes. Tolentino levou-me a jantar ao Machico e, à saída do Funchal, passando nós por um casario rasteiro, disse-me: “Naquela casa nasceu o Aurelino Sousa Gomes, conheces?”. Não conhecia, nem o nome me dizia um átimo. O poeta-padre explicou-me então quem era Aurelino, o mito que se criara em torno dele e a diferença imensa face à inevitável comparação com Herberto Helder. Ao contrário de HH, Aurelino recusava obstinada e continuamente publicar, não se lhe conhece uma única fotografia, ninguém do meio literário lusitano alguma vez chegou à fala com ele. E, no entanto, todos já ouviram falar dele, mas em sussuro velado e desmentido.
Curiosamente, acabei por vir ouvir falar de Aurelino Sousa Gomes num final da tarde em Tóquio. Numa recepção social, dessas que se prolongam para lá do que seria a vontade dos anfitriões e que recomendaria o pundonor social, dei por mim à conversa com um professor japonês, lusitanista e académico numa universidade da capital. Embalado por um Porto seco, perguntou-me por Aurelino. Não escondi a surpresa: como era possível que em azimute tão remoto um académico, mesmo estudioso da portugalidade, conhecesse um escritor fantasma? Explicou-me que se tinha doutorado em Coimbra, com uma tese sobre a escrita insular portuguesa. Partira de Antero para chegar a Natália, mas passando também pela Madeira, pelos versos de José Agostinho Baptista e, claro, por Tolentino e Herberto. Concluira que as marcas da insularidade têm traços comuns entre os nossos dois arquipélagos (o mar, o isolamento, a partida) mas dissemelhanças não menos fortes (traços psicológicos mais introspectivos nos Açores; uma maior reconciliação com a ideia de ausência no caso da Madeira). Alongou-se em detalhes para me dizer que tinha passado uma temporada de investigação no Funchal e que tinha recorrido a todos os meios para chegar à fala com Aurelino. Não conseguiu e trouxe consigo essa frustração: diz-me que sente que a sua tese não está acabada por lhe faltar esta palavra que nunca conseguiu arrancar ao escritor que fez da fuga um estilo e uma opção de vida.
Foi sobre este homem mistério que José Mário Silva falou no FLM há dias, trazendo luz sobre um nome que todos admiram mas que ninguém conhece. Falou-se dele por uns dias mas tudo voltará ao mesmo silêncio de sempre. Por agora, José Mário Silva conseguiu algo inédito – recebeu um telegrama de Aurelino, que é, salvo erro, o único mas mesmo o único texto aureliano que alguma vez viu a luz do dia. Pode ser lido aqui.
(desenho de Pedro Vieira)
O mundo inteiro assim cabe num limbo
e é como um eco límpido
e uma folha de sombra que no vagar ondeia entre minúsculas luzes
E é astro imediato de um lúcido sono fluvial
e um núbil eclipse em que estar só é estar no íntimo do mundo
António Ramos Rosa, in Poemas Inéditos