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12/06/2011


DOMINGO DE VERSOS - Teixeira de Pascoaes




Portugal é a Paisagem e a Saudade.


26/05/2011


Gonçalo M. Tavares, o ardiloso



Cohen era assim uma pessoa solitária e por isso recebeu com certa estranheza o convite de um homem, Diamond, que vivia em Londres - convidava-o para passar duas semanas em sua casa. Tinham-se conhecido numa conferência onde os tiques de Cohen em poucos minutos haviam ficado totalmente expostos. Os seus involuntários gestos obscenos eram pois bem conhecidos de Diamond.

Diamond era o primeiro a convidar Cohen para umas vulgares férias em conjunto. Cohen hesitava.

Gonçalo M. Tavares, Matteo perdeu o emprego



24/05/2011


Carta de guia para eleitores, em que se trata da opinião pública, das qualidades para deputado, e do modo de as conhecer

ou

Profilaxia para uma Campanha eleitoral






Senhor Presidente - continuou o orador, tomando rapé com a sofreguidão de quem teme que o raio inspirativo se arrefente - senhor presidente! Eu tenho o desgosto de ter nascido num país em que o mestre-escola ganha cento e noventa réis por dia, e as cantarinas, segundo me dizem, ganham trinta e quarenta moedas por noite. Eu sou de um país, senhor presidente, em que se pede ao povo o subsídio literário para pagar com ele as tramóias da Lucrécia Bórgia. Eu sou de um país pobríssimo, em que a veia da nação exangue sofre cada ano a sangria de algumas dúzias de contos para sustentar comediantes, farsistas, funâmbulos e dançarinas impúdicas. Senhor presidente, V. Exa. sorriu, vejo que a câmara está sorrindo e eu ouso dizer a V. Exa. e aos meus colegas, como o poeta mantuano: sunt lacrimae rerum. Aqui é o ponto de se carpirem por seus filhos aqueles que se cuidam muito avantajados em civilização a seus avós.




Camilo Castelo Branco, A Queda dum Anjo





22/05/2011


DOMINGO DE VERSOS - SOPHIA




Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão
Porque os outros se calam mas tu não

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo
Porque os outros são hábeis mas tu não

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos
Porque os outros calculam mas tu não.


Sophia de Mello Breyner


18/05/2011


Da série "escritores com enorme potencial"


Badana de "A Filha dos Mundos" de Inês Botelho.

Através de um dos meus blogs de leitura obrigatória,
Livreira Anarquista.

(clicar na imagem para aumentar e ver melhor)


15/05/2011


DOMINGO DE VERSOS - LUIS VAZ DE CAMÕES




Já no largo Oceano navegavam,
As inquietas ondas apartando;
Os ventos brandamente respiravam,
Das naus as velas côncavas inchando;
Da branca escuma os mares se mostravam
Cobertos, onde as proas vão cortando
As marítimas águas consagradas,
Que do gado de Proteu são cortadas

Luis Vaz de Camões, Os Lusíadas, Canto I, estrofe 19


14/05/2011


CAMÕES PARA PINA




Grande notícia a atribuição do Prémio Camões a Manuel António Pina. Não conheço nada da obra infantil, conheço alguma coisa da obra poética, sou apaixonado pelo romance "Os Papéis de K." (um livro que me foi oferecido pela Gui Poppe e que durante vários anos ofereci a 'n' pessoas) e leitor deliciado das crónicas (que seguia semanalmente quando ele escrevia na Visão). Interessa-me pouco (confesso) o lado do livro infantil e acho redutor que se esteja a sublinhar tanto esse aspecto. Também não me interessa por aí além o lado de poeta-cidadão. O que me interessa em Pina é o cuidado extremo pelas palavras, o lado cultor quase biológico do verso: "O que é feito de nós, senão/ as palavras que nos fazem?". As palavras são terreno onde Pina se move como cavaleiro renascentista.

(dito isto, olhando para a lista de premiados do Prémio Camões, noto com espanto e alguma tristeza que falta na lista um dos maiores escritores portugueses vivos: Mário Cláudio)


29/04/2011


OS AMANTES

Ver
aqui.

(por uma qualquer razão técnica, não consigo importar directamente o video, mas confiem em mim e cliquem em cima para o youtube para ouvir 3 minutos e qualquer coisa de amor em estado puro).


25/04/2011


Sem título





Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner
(O Nome das Coisas, 1977)



(roubado ao CD - haverá pena para quando se rouba um poema?)


19/04/2011


PORTO SEGURO




Entre um sobressalto geológico e outro, voo entre a elegância da estética onde não me revejo muito mas que reconheço finíssima de Carlos de Oliveira em "Uma Abelha na Chuva" ("Um instinto profundo, a que não dava nome, avisava D. Cláudia de que em tudo havia uma crueza que era melhor não desvendar."), a escrita menos japonesa que um japonês já produziu de Kenzaburo Oe em "The Changeling" ("What?, the teacher spluttered indignantly, Which ancient book did you find that foolishness in? How was it phrased in classical Japanese?") e o neorealismo urbano de José Rodrigues Miguéis em "A Escola do Paraíso" ("O toucador da Miquelina: espelhos, mármores, castiçais e metais doirados, vermeil (pechisbeque, no dizer da mãezinha), esmaltes com bosques, ninfas e pastores, frasquinhos e atomizadores com a borrachinha envolta numa rede de retrós, e as borlas de pó de arroz, tufadas, frescas, leves como espumas"). Valter Hugo Mãe está à espreita e Toni Morrison já bateu à porta.

Vou assim, como num livro à deriva em busca de porto seguro. Os livros nunca me falharam.


10/04/2011

DOMINGO DE VERSOS - Jorge de Sena



Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas,
os temas, os motivos, os símbolos,
e a primazia nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros,
na coragem de combater, julgar,
de penetrar em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até outros ladrões mais felizes.
Não importa nada:
que o castigo será terrível.
Não só quando vossos netos
não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome.
E mesmo será meu, tido por meu,
contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável que,
só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada:
nem os ossos, que um vosso esqueleto há-de ser buscado, para passar por meu.
E para outros ladrões, iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.

(de Metamorfoses, 1963)


06/04/2011

AURELINO SOUSA GOMES - um mistério é sempre um mistério




José Mário Silva revelou (
aqui) há dias, no Festival Literário da Madeira, aquele que é o segredo menos bem guardado do meio literário português: o mito das letras contemporâneas que é Aurelino Sousa Gomes.

Sousa Gomes nasceu no Funchal nos anos 20 do século passado e tem – diz-se – das obras mais prolíficas dos últimos 100 anos em Portugal. Nunca publicou uma linha, pese embora insistências de todos os azimutes. Mantém correspondência com o espanhol Enrique Vila-Matas depois de o ter ameaçado espancar numa ruela de Barcelona. Não se sabe se conserva uma arca pessoana, se queima em noites frias os cadernos que nunca escreveu, se grava textos num gravador antigo ou se, pura e simplesmente, escreve em toalhas de papel de restaurantes de peixe sobranceiros ao mar de Porto Moniz.

Mário Silva conheceu pessoalmente Aurelino Sousa Gomes, que era amigo do seu avô paterno. Não tive tal sorte.

Ouvi pela primeira vez falar de Aurelino no Verão de 1999: cansado da minha tese académica e da prosápia jus-positivista, fugi para a Madeira por quatro dias. Na véspera de regressar a Lisboa, esperei à porta da Sé do Funchal por José Tolentino de Mendonça. Chegou com minutos de atraso para me resgatar ao spleen ilhéu, estando eu ali, encostado à caliça clerical a ler a “Baía dos Tigres”, de Pedro Rosa Mendes. Tolentino levou-me a jantar ao Machico e, à saída do Funchal, passando nós por um casario rasteiro, disse-me: “Naquela casa nasceu o Aurelino Sousa Gomes, conheces?”. Não conhecia, nem o nome me dizia um átimo. O poeta-padre explicou-me então quem era Aurelino, o mito que se criara em torno dele e a diferença imensa face à inevitável comparação com Herberto Helder. Ao contrário de HH, Aurelino recusava obstinada e continuamente publicar, não se lhe conhece uma única fotografia, ninguém do meio literário lusitano alguma vez chegou à fala com ele. E, no entanto, todos já ouviram falar dele, mas em sussuro velado e desmentido.

Curiosamente, acabei por vir ouvir falar de Aurelino Sousa Gomes num final da tarde em Tóquio. Numa recepção social, dessas que se prolongam para lá do que seria a vontade dos anfitriões e que recomendaria o pundonor social, dei por mim à conversa com um professor japonês, lusitanista e académico numa universidade da capital. Embalado por um Porto seco, perguntou-me por Aurelino. Não escondi a surpresa: como era possível que em azimute tão remoto um académico, mesmo estudioso da portugalidade, conhecesse um escritor fantasma? Explicou-me que se tinha doutorado em Coimbra, com uma tese sobre a escrita insular portuguesa. Partira de Antero para chegar a Natália, mas passando também pela Madeira, pelos versos de José Agostinho Baptista e, claro, por Tolentino e Herberto. Concluira que as marcas da insularidade têm traços comuns entre os nossos dois arquipélagos (o mar, o isolamento, a partida) mas dissemelhanças não menos fortes (traços psicológicos mais introspectivos nos Açores; uma maior reconciliação com a ideia de ausência no caso da Madeira). Alongou-se em detalhes para me dizer que tinha passado uma temporada de investigação no Funchal e que tinha recorrido a todos os meios para chegar à fala com Aurelino. Não conseguiu e trouxe consigo essa frustração: diz-me que sente que a sua tese não está acabada por lhe faltar esta palavra que nunca conseguiu arrancar ao escritor que fez da fuga um estilo e uma opção de vida.

Foi sobre este homem mistério que José Mário Silva falou no FLM há dias, trazendo luz sobre um nome que todos admiram mas que ninguém conhece. Falou-se dele por uns dias mas tudo voltará ao mesmo silêncio de sempre. Por agora, José Mário Silva conseguiu algo inédito – recebeu um telegrama de Aurelino, que é, salvo erro, o único mas mesmo o único texto aureliano que alguma vez viu a luz do dia. Pode ser lido
aqui.


(desenho de Pedro Vieira)


03/04/2011

DOMINGO DE VERSOS - Manuel Maria Barreiros



Se esta noite passar um cometa, ainda pedirás um desejo?


Manuel Maria Barreiros, in aqueles que têm os ossos frágeis


27/03/2011


DOMINGO DE VERSOS - ANTÓNIO RAMOS ROSA



O mundo inteiro assim cabe num limbo


e é como um eco límpido


e uma folha de sombra que no vagar ondeia entre minúsculas luzes


E é astro imediato de um lúcido sono fluvial


e um núbil eclipse em que estar só é estar no íntimo do mundo



António Ramos Rosa, in Poemas Inéditos


13/03/2011

Domingo de versos - Mário Cesariny




Ama como a estrada começa


Mário Cesariny

08/03/2011


O equívoco




Numa conversa que era de “estudo mútuo pluridimensional”:

- … a força da dimensão poética, esse rasgar da barreira entre o eu e o espaço envolvente é arrasador nos poemas dele. É um dos poetas da minha vida, um livro de cabeceira de sempre.
- Mas desculpa, estás a falar de quem exactamente?, perguntei eu, que estava ligeiramente distraído
- Do Ary dos Santos!
- Ah, ok...

Foi o fim inglório de algo que nunca chegou a começar.

06/03/2011


Domingo de versos - Pedro Tamen



Amigo, a que Vieste?

Onde foste ao bater das quatro horas
e, antes, quem eras tu, se eras?
Amigo ou inimigo, posso falar-te agora
sentado à minha frente e com os ombros
vergados ao peso da caneta?
Falo-te sobre a cabeça baixa
e vejo para além de ti, no horizonte,
teus riscos e passadas;
mas não sei onde foste, nem se eras.
Olho-te ao fundo, sob o sol e a chuva,
fazendo gestos largos ou só um leve aceno;
dizes palavras antigas,
de antes das quatro horas,
e nada sei de ti que tu me digas
dessa cabeça surda.
Não te pergunto pela verdade,
que pensas de amanhã ou se já leste Goethe;
sequer se amaste ou amas
misteriosamente
uma mulher, um peixe, uma papoila.
Não quero essa mudez de condolências
a mim, a ti, ou só à terra
que tu e eu pisamos — e comemos.
Pergunto simplesmente se tu eras,
quem eras, e onde foste
depois que se fizeram quatro horas.

Será que não tens olhos? Não tos vejo.
De longe em longe
agitas a cabeça, mas talvez seja engano.
Palavra, não te entendo.
Amigo, a que vieste?

Pedro Tamen, in "Horácio e Coriáceo"

25/02/2011

Tratado em que se contêm muito sucintamente e abreviadamente algumas contradições e diferenças de costumes entre a gente da Europa e desta província do Japão



Os quase 5 séculos de presença portuguesa no Japão são, em primeiro lugar, tributários dos jesuítas. Estes 500 anos são marcados por homens notabilíssimos que, sendo missionários, aqui aportaram trazendo a cruz numa mão e a fineza de espírito e o cosmopolitismo na outra. Esta semana, li um livro de um deles, Luís Fróis que, em 1585 conclui o Tratado em que se contêm muito sucintamente e abreviadamente algumas contradições e diferenças de costumes entre a gente da Europa e desta província do Japão.

Fróis nasceu em Lisboa em 1532 e chegou ao Japão em 1562, onde viveu até 1597, ano em que morreu em Nagasáqui. O livro, notável, que assinou durante a sua estada, foi reeditado em 2001 pelo Instituto Português do Oriente. Não pode ser lido, nos dias de hoje, como qualquer esboço de tipo antropológico mas é um documento precioso para compreendermos os homens de quinhentos: os de Portugal e os desta província do Japão, o modo como uns e outros se olhavam, as desconfianças mútuas e as ligações que se estabeleciam, quer as baseadas na compreensão, quer as da incompreensão.

O livro está dividido em 14 capítulos temáticos: os homens, as mulheres, as crianças, os religiosos, os templos, a comida, as armas, os cavalos, as doenças, a escrita, as casas, os barcos, os autos e os "extras". Ao longo de centenas de pontos, Fróis compara com detalhe os modos de europeus e "japões".

Alguns exemplos:

"Entre nós a gente lava o corpo em suas casas muito escondidos; em Japão homens e mulheres e bonzos em banhos públicos ou à noite às suas portas.

(...)

Em Europa ordinariamente as mulheres fazem de comer; em Japão o fazem os homens, e os fidalgos têm por primor ir fazê-lo à cozinha.

(...)

Onde as derradeiras folhas de nossos livros de acabam, ali começam os deles".

20/02/2011

Domingo de versos - Eduardo Pitta



Temos que baste
a pátria à janela
e a vontade na cama

Eduardo Pitta

18/02/2011


Isto anda tudo ligado...



Há dias estive em Yokohama (segunda cidade do Japão e onde se encontra a maior China-town do mundo fora da China - ver foto acima), para uma reunião de trabalho. No decurso do almoço, também de trabalho, o meu interlocutor explicava-me com detalhe o tipo de plantações florestais na ilha da Madeira e a sua importância para a manutenção do equilíbrio do ecossistema local. E foi quando ele disse aquela palavra - ecossistema - que se fez luz no meu espírito sobre o modo de "desatar" um nó górdio de um texto sobre Maria Gabriela Llansol em que ando a matutar.

À partida dir-se-ia que as coisas não têm nada a ver uma com a outra: uma reunião técnica em Yokohama sobre plantações florestais sustentáveis e os intrincados meandros literários de uma escritora portuguesa exilada na Bélgica. Mas foi assim: o ecossistema biológico madeirense, de repente, foi chave interpretativa do ecossistema literário llansoliano. Há coisas que não se explicam.