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16/06/2011


BLOOMSDAY or the Irish spleen




Bloomsday celebrates the day on which the action of James Joyce’s novel Ulysses takes place, 16 June 1904, the day on which (we believe) Joyce first went out with his future wife, Nora Barnacle. The day is named after Leopold Bloom, the central character in Ulysses. The novel follows the life and thoughts of Leopold Bloom and a host of other characters – real and fictional – from 8am on 16 June through to the early hours of the following morning.

One of the earliest Bloomsday celebrations was a Ulysses lunch, organised by Sylvia Beach, publisher of Ulysses, and her partner Adrienne Monnier in France in June 1929. The first Bloomsday celebrated in Ireland was in 1954, the fiftieth anniversary of the first Bloomsday when the writers Patrick Kavanagh and Flann O’Brien visited locations like the Martello Tower at Sandycove, Davy Byrne’s pub, and 7 Eccles Street, reading parts of Ulysses and drinking a great deal as they went!

Today, Bloomsday is celebrated by Joyceans across the globe with readings, performances, re-enactments, and a host of other events. In Dublin, enthusiasts dress in Edwardian costume and gather during the day at many of the locations where episodes of Ulysses take place. The James Joyce Centre hosts Bloomsday breakfasts (including kidney, which Mr Bloom eats for breakfast in the novel) and other events in the run up to June 16 as well as on the day.


13/06/2011


O sonho de Vargas




Roger Casement servira como cônsul inglês na Nigéria, Moçambique e Angola antes do Foreign Office lhe dar uma missão que mudaria a vida: entrar pelo Congo adentro e verificar as condições de vida dos trabalhadores da borracha a soldo do império belga. Irlandês de nascimento e humanista por formação, Casement regressa a Londres com uma relatório explosivo e desejoso de se dedicar a outras causas mas a fama como o homem para missões difíceis arrastou-o para a Amazónia. De novo estava em busca de uma fotografia sobre as condições dos índios peruanos. Por cada horror que constatava, escrevia uma página e por cada página que escrevia arregimentava mais um inimigo.

Entre a biografia e o romance (mas mais este do que aquele), "O Sonho do Celta" pinta o retrato de um homem dilacerado ao serviço de uma certa ideia de pátria (devia ser obrigatório para diplomatas e candidatos). Casement semeia carisma mas invariavelmente colhe tempestades, pisando firme a linha que separa o bem e o mal. Não arrisca a doutrinação com sabor envagélico, embora não seja jacobino. Nunca perde a lucidez nem a misericórdia.

Vargas Llosa leva-nos por meio milhar de páginas e, a certo ponto, já não somos nós que lemos os desvaires do Celta, é o livro que ganha vida própria e nos lê a nós. Com uma estrutura constante ao longo de três partes (Congo, Amazónia, Irlanda), a biografia de Casement não cede ao romantismo, nem é meiga com o biografado. Aliás, não precisa de ser porque a vida de Casement fala por si própria e não se oferece a indulgências. Vargas Llosa não fugiu do pulsar homo-erótico, embora talvez pudesse ter convocado mais as páginas dos famosos "black diaries", não por voyeurismo literário mas porque isso insufla espessura humana aquele que é, assumidamente, um romance de personagem (além de que Vargas Llosa escreve com muita elegância sobre sexo, o que é tão raro quanto difícil).

A crítica internacional não foi benevolente com "O Sonho do Celta" que, obviamente, não tem (nem quer ter) o arcaboiço literário de "A Conversa na Catedral" ou a fineza de espírito e de letra de "Os Cadernos de Dom Rigoletto". Mas nem por isso o novo livro do Nobel de 2011 deixa de ser um prazer imenso, transportando o leitor para aquele território indizível que faz com que, quando Roger Casement morre na última linha do livro, o leitor morra também um pouco com ele.

26/05/2011


Gonçalo M. Tavares, o ardiloso



Cohen era assim uma pessoa solitária e por isso recebeu com certa estranheza o convite de um homem, Diamond, que vivia em Londres - convidava-o para passar duas semanas em sua casa. Tinham-se conhecido numa conferência onde os tiques de Cohen em poucos minutos haviam ficado totalmente expostos. Os seus involuntários gestos obscenos eram pois bem conhecidos de Diamond.

Diamond era o primeiro a convidar Cohen para umas vulgares férias em conjunto. Cohen hesitava.

Gonçalo M. Tavares, Matteo perdeu o emprego



24/05/2011


Carta de guia para eleitores, em que se trata da opinião pública, das qualidades para deputado, e do modo de as conhecer

ou

Profilaxia para uma Campanha eleitoral






Senhor Presidente - continuou o orador, tomando rapé com a sofreguidão de quem teme que o raio inspirativo se arrefente - senhor presidente! Eu tenho o desgosto de ter nascido num país em que o mestre-escola ganha cento e noventa réis por dia, e as cantarinas, segundo me dizem, ganham trinta e quarenta moedas por noite. Eu sou de um país, senhor presidente, em que se pede ao povo o subsídio literário para pagar com ele as tramóias da Lucrécia Bórgia. Eu sou de um país pobríssimo, em que a veia da nação exangue sofre cada ano a sangria de algumas dúzias de contos para sustentar comediantes, farsistas, funâmbulos e dançarinas impúdicas. Senhor presidente, V. Exa. sorriu, vejo que a câmara está sorrindo e eu ouso dizer a V. Exa. e aos meus colegas, como o poeta mantuano: sunt lacrimae rerum. Aqui é o ponto de se carpirem por seus filhos aqueles que se cuidam muito avantajados em civilização a seus avós.




Camilo Castelo Branco, A Queda dum Anjo





18/05/2011


Da série "escritores com enorme potencial"


Badana de "A Filha dos Mundos" de Inês Botelho.

Através de um dos meus blogs de leitura obrigatória,
Livreira Anarquista.

(clicar na imagem para aumentar e ver melhor)


05/05/2011


SAUDADES DE LISBOA




Pelo que leio por aí a Feira do Livro de Lisboa deste ano está marxista: há pavilhões Fauchon e pavilhões LIDL. Será inevitável quando o mercado livreiro português se está a "super-mercantilizar". Por mim, tenho pena. Gosto daquelas filas de pavilhões todos iguais, que me habituei a visitar desde miúdo de mãos dadas com os meus Pais. Há coisas que ficam para a vida.


27/04/2011


O AMANTE




Vejo-o todos os dias na reunião. Senta-se sempre no mesmo lugar, na última fila. Entra com o porte majestático de quem transporta confiança em si e no mundo. O ar exótico inspirado em misticismo oriental é temperado pelo corte impecável de fatos ingleses e gravatas italianas. No cabelo, o excesso de brilhantina não chega a comprometer a pose. A elegância, como qualquer elegância digna desse nome, é estudada ao ponto de parecer descontraída. Ouve o que se passa com ar ausente mas firme. Poderia estar a fumar uma cigarrilha, se acaso déssemos com ele de fato de linho branco encostado à balaustrada de um navio ao largo da Indochina.

Sabia que o conhecia. Mas quem era? Ao fim de várias semanas percebi que fugira das páginas de Duras e era, afinal, o comerciante rico de “L’Amant”. Nem sei como se chama mas agradeço-lhe ter-me recordado uma das frases mais belas da história da literatura: Très vite dans ma vie il a été trop tard.


23/04/2011


April, 23rd, World Book Day




We should read to give our souls a chance to luxuriate.


Henry Miller




19/04/2011


PORTO SEGURO




Entre um sobressalto geológico e outro, voo entre a elegância da estética onde não me revejo muito mas que reconheço finíssima de Carlos de Oliveira em "Uma Abelha na Chuva" ("Um instinto profundo, a que não dava nome, avisava D. Cláudia de que em tudo havia uma crueza que era melhor não desvendar."), a escrita menos japonesa que um japonês já produziu de Kenzaburo Oe em "The Changeling" ("What?, the teacher spluttered indignantly, Which ancient book did you find that foolishness in? How was it phrased in classical Japanese?") e o neorealismo urbano de José Rodrigues Miguéis em "A Escola do Paraíso" ("O toucador da Miquelina: espelhos, mármores, castiçais e metais doirados, vermeil (pechisbeque, no dizer da mãezinha), esmaltes com bosques, ninfas e pastores, frasquinhos e atomizadores com a borrachinha envolta numa rede de retrós, e as borlas de pó de arroz, tufadas, frescas, leves como espumas"). Valter Hugo Mãe está à espreita e Toni Morrison já bateu à porta.

Vou assim, como num livro à deriva em busca de porto seguro. Os livros nunca me falharam.