Mostrar mensagens com a etiqueta Portugal no Japão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Portugal no Japão. Mostrar todas as mensagens

09/06/2011


Alentejo em Tóquio



A dois passos da estação de metro de Yotsuya e não longe da Embaixada, está o Manuel - Casa de Fados. Improvável mas real. Hoje, comi uma sopa de cenoura ao som de Amália, uma carne de porco à alentejana com Carlos Paredes e entre uns e outros, fui lendo Teolinda Gersão.

E juro que as amêijoas sabiam a mar.

08/06/2011


AQUELE QUERIDO MÊS DE AGOSTO EM TÓQUIO






Há um Portugal pré-globalização, rural, escondido, telúrico. E há imaginação, criatividade, arrojo e audácia. Eis quanto basta para Miguel Gomes fazer de "Aquele querido mês de Agosto" uma surpresa luminosa. O filme é um objecto plástico irrepreensível, aproveitando o que poderiam ter sido debilidades iniciais e transportando-as para o coração dum olhar urbano sobre a dureza da serra. Não há ali ponta de proselitismo (e era tão fácil cair nesse erro). Há apenas tempo de respiração e uma fuga permanente às soluções fáceis. Quando se poderia esperar que a nudez sertã surgisse de mãos dadas com uma puerilidade sentimental, o filme é rasgado por uma crueldade imensa, que lhe insufla credibilidade (não confundir com realismo).

A certa altura, a banda itinerante canta uma canção de Tony Carreira que diz "Adeus amor, mas tenho o mundo à minha espera". Quem vive ou viveu mais de seis meses em terra alheia, sabe bem do que se fala.

(o filme passou ontem à tarde em Tóquio no EU Film Days e repete amanhã, 5ª feira, dia 9, às 18h30. Ver informações
aqui.)


19/05/2011


O QUE É QUE O MATEUS TEM?




Podemos desprezá-lo olimpicamente mas é um campeão: no supermercado toquioita da minha rua, além do clássico Porto e do aqui popularíssimo Madeira, o único vinho português que tem direito a prateleira permanente é o da garrafinha bojuda do Mateus Rosé. Saddam bebia-o nos marmóreos palácios de Bagdad e os contentores mercantes cruzam mares levando este vinho aos mais remotos cantos do planeta. Mas nós, palato refinado por excursões parisieneses, recusamo-nos a consumi-lo dentro de portas.

Quando, em certa ocasião, tive para jantar em casa um grupo de colegas estrangeiros, chegado o momento de fazer de escanção e de perorar em defesa da rolha de cortiça, um dos convivas atalhou: Are you serving us the famous Portuguese Mateus Rosé? Pois não ia e fiquei descoroçoado. Mas agora já sei onde se pode comprar. Da próxima vez, levam com ele.


04/05/2011


Sumimasen (=ó faxe favor), era uma bica e um nata!




Não é preciso ir a Lisboa para comer um pastel de nata e um café depois de almoço - por incrível que pareça, isso é possível em Tóquio, naquela que é, aliás, uma das esplanadas mais simpáticas aqui. Fica na Omotesando e é um restaurante português chamado "Pérola do Atlântico". Tem um staff profissionalíssimo (como, aliás, aqui é hábito) e uma esplanada num 4º andar cheio de sol. Hoje só fui tomar café mas também tem bacalhau com natas, arroz de pato, feijoada à transmontana e bolo de mel da Madeira. Haviam de ver o ar deliciado do casal japonês ao meu lado a comer uma cataplana de marisco!



25/02/2011

Tratado em que se contêm muito sucintamente e abreviadamente algumas contradições e diferenças de costumes entre a gente da Europa e desta província do Japão



Os quase 5 séculos de presença portuguesa no Japão são, em primeiro lugar, tributários dos jesuítas. Estes 500 anos são marcados por homens notabilíssimos que, sendo missionários, aqui aportaram trazendo a cruz numa mão e a fineza de espírito e o cosmopolitismo na outra. Esta semana, li um livro de um deles, Luís Fróis que, em 1585 conclui o Tratado em que se contêm muito sucintamente e abreviadamente algumas contradições e diferenças de costumes entre a gente da Europa e desta província do Japão.

Fróis nasceu em Lisboa em 1532 e chegou ao Japão em 1562, onde viveu até 1597, ano em que morreu em Nagasáqui. O livro, notável, que assinou durante a sua estada, foi reeditado em 2001 pelo Instituto Português do Oriente. Não pode ser lido, nos dias de hoje, como qualquer esboço de tipo antropológico mas é um documento precioso para compreendermos os homens de quinhentos: os de Portugal e os desta província do Japão, o modo como uns e outros se olhavam, as desconfianças mútuas e as ligações que se estabeleciam, quer as baseadas na compreensão, quer as da incompreensão.

O livro está dividido em 14 capítulos temáticos: os homens, as mulheres, as crianças, os religiosos, os templos, a comida, as armas, os cavalos, as doenças, a escrita, as casas, os barcos, os autos e os "extras". Ao longo de centenas de pontos, Fróis compara com detalhe os modos de europeus e "japões".

Alguns exemplos:

"Entre nós a gente lava o corpo em suas casas muito escondidos; em Japão homens e mulheres e bonzos em banhos públicos ou à noite às suas portas.

(...)

Em Europa ordinariamente as mulheres fazem de comer; em Japão o fazem os homens, e os fidalgos têm por primor ir fazê-lo à cozinha.

(...)

Onde as derradeiras folhas de nossos livros de acabam, ali começam os deles".

02/02/2011


Portugal a 10 000 quilómetros visto pela TVI



Já não bastava ver às 22h o jornal televisivo das 13h que é sempre fraquinho. Ainda por cima, por uma razão informática que me escapa, não consigo ver online outro canal senão a TVI... Posso, portanto, não estar informado sobre as reacções do mercado à venda de bonds e o rating da República mas sei tudo sobre o crime luso de Nova Iorque ou a velhinha roubada em Vila Nova de AiJesus.

Vantagem: janto com música e sem televisão porque a essa hora está o Manuel Luís Goucha a cofiar o bigode em directo. A diáspora não merece isto.

27/01/2011


50 anos no Japão



A imagem acima é a capa do dicionário japonês - português que comprei a semana passada. Naquelas páginas estão mais de duas décadas de trabalho árduo, intenso, generoso e dedicado. É o projecto de uma vida do Padre Jaime Coelho, jesuíta, há 50 anos no Japão, investigador, filólogo e antigo professor da Universidade Sofia de Tóquio. O Padre Jaime Coelho trabalha agora na versão português - japonês, que esperamos possa estar nas bancas rapidamente.

O autor, com quem tive o gosto de almoçar a semana passada - espero que ele me perdoe a inconfindência da agenda - é um testemunho vivo do último meio século das relações entre os dois países e fala com a vivacidade de um jovem e com a inteligência sólida de um jesuíta. Um gosto.

06/01/2011

Nossa Senhora de Fátima de Tóquio - os milagres impossíveis



S. passa sinais encarnados, pisa traços contínuos, fala com dois telemóveis ao mesmo tempo, entra em ruas em contra-mão, estaciona em qualquer lado e abre mapas e dossiers ao mesmo tempo que conduz. Mas, ao mesmo tempo, é a melhor ajuda que um estrangeiro recém-chegado pode ter: procura casas, negoceia o contrato, faz de intérprete, trata dos papéis da água/ luz/ gás/ telefone/ net. Viver com ela é perigoso. Viver sem ela é impossível.

Um dia, andando eu com ela no carro, agarrado ao banco e já branco, ousei perguntar:

- S., you don't have problems with the police?
- oh, yeah, I used to, but not after having gone to Fátima.

Como o inglês de S. é "comunicante" mas não estruturalmente sólido, pensei que se referiria a um qualquer templo shintoista. E disse:

- where is that?
- OOOHHHHH, you don't know Fátima, in Portugal? Where Our Lady talked to the 3 children?

Achei que não era possível, que era um delírio, um mal-entendido, um problema linguístico. Mas ela explicou:

- I'm not a believer but when I went to Portugal, I was very curious about Fátima and I went there and bought this key-ring (e mostrou-me um porta-chaves semelhante ao da fotografia acima). Now I have the blessing of the Lady and the police doesn't bother me anymore.

A próxima vez que ouvir dizer que Fátima é o "altar do mundo" já não vou achar exagerado - pelo menos é onde se imolam todos os pecadilhos automobilísticos da minha incontornável S..


06/12/2010

Vai um pão de ló de Alfeizerão?



Não é só (metades de ) pastéis de nata que se encontram a marcar a paisagem gastronómica portuguesa em Tóquio. O pão de ló de Alfeizerão - molhadinho com aquele doce de ovos tentador - faz parte da gastronomia local japonesa. Foi das primeiras coisas que os portugueses para aqui trouxeram, sendo aqui conhecido como "bolo castela" (há várias explicações para o nome). Compra-se com facilidade em qualquer boa loja, a preços razoáveis. Esta fotografia é da cafetaria do Muji, a semana passada. Ça va sans dire, que lá tive de comer uma fatia...

25/11/2010

Vai meio pastel de nata?



Guloso como sou – não me esqueço tratar-se de pecado mortal mas isso provoca em mim uma indiferença olímpica– ansiei todo o almoço pelo Portuguese Egg Tart anunciado na ementa, que é a designação que aqui leva o portuguesíssimo pastel de nata. Não esperava comer dois ou três, como se faz em Belém, mas qual não foi o meu espanto quando me trazem metade... Cortado com precisão japonesa, havia naquela metadinha uma espécie de ampliação exponencial do sentimento de culpa. Um bocadinho desconsolado, lá comi. Ainda por cima, era delicioso, este meu pastel de nata. Ou melhor: este meu “meio” pastel de nata.

20/11/2010

Um encontro improvável na Livraria Maruzen

19/11/2010

ANTÓNIO DAMÁSIO EM TÓQUIO - pensar ou sentir? ou ambos?



Esta semana esteve em Tóquio António Damásio, que aqui veio receber o prémio de ciência da Fundação Honda. Damásio fez uma notabilíssima conferência sobre The Neurobiology of Emotions: Consequences for Medicine and Culture, mostrando que é não só um emérito cientista mas um excepcional divulgador de ciência. Além da relevância fisiológica das emoções ou da ideia do corpo como palco das emoções (assunto em que Damásio trabalha há muito tempo e sobre o qual eu já tinha lido qualquer coisa), o que mais me impressionou é que a abordagem dele não é desconstrutivista (ao contrário do que eu pensava) mas inclusiva. Ou seja: Damásio defende que não se trata apenas de analisar os efeitos orgânicos das emoções (o que ele também faz e todos experimentamos quando o ritmo cardíaco acelera se o avião em que viajamos tem uma turbulência forte, por exemplo) mas de integrar, organicamente, todo o tecido emocional. No limite, o que está em causa é a ruptura definitiva entre sentir e pensar (o que ele há muitos anos chamou o "erro de Descartes"). Ao assumir-se como um “cartógrafo” das emoções (a expressão não é dele mas talvez a pudesse subscrever), Damásio falou ainda do impacto de tudo isto sobre o processo decisório, desde o general que tem de mandar disparar na guerra ao político que decide cortar benefícios fiscais passando pelo “mero” consumidor que, no supermercado, compra x ou y.
Fiquei com vontade de perguntar duas coisas: em termos conceptuais, como distingue ele “emoções” e “sentimentos” (ele passou por aqui mas não ficou claro para mim). Segunda pergunta: no decision making process é possível quantificar o peso de cada um dos factores desta equação?
Damásio foi notável e saí do Hotel Imperial cheio de orgulho pelo prémio que lhe foi entregue.

20/10/2010

JAPÃO NA VANGUARDA TECNOLÓGICA - O diálogo português





O Japão construiu no ocidente uma imagem de sofisticação e de vanguarda, sobretudo no domínio tecnológico que é, aliás, justíssima e bem fundada. Por isso, não evitei uma gargalhada de espanto quando descobri que o último grito tecnológico no domínio da meteorologia é o Galo de Barcelos de J. Dias Cardoso (aprendi aqui), à venda em Tóquio por 28 euros. Pode encontrar-se – segunda causa de espanto – na loja de design do MOMA (o de Nova Iorque, sim), em plena Omotesando, uma das avenidas mais sofisticadas desta capital. Junto a peças de Philippe Starck ou Alvar Aalto, lá está, de pleno direito, o nosso galinho de Dias Cardoso que muda de cor consoante o tempo. Há sempre espaço para reinventar o passado.

04/10/2010

PORTUGAL: questão que tenho comigo mesmo
(de Lisboa a Osaka, passando por Luanda)



De Lisboa a Osaka são 11072 quilómetros de distância: há que vencer muitas montanhas, galgar muitas estepes, dobrar muitos bojadores. É por isso que olho com a surpresa dos puros para uma sala cheia de gente, em Osaka, a celebrar Portugal. Gente que me fala num português que me custa a entender (mas muito melhor do que será alguma vez o meu japonês); gente que bebe vinho do Dão; que me pergunta pela Expo98; que cita Camões e Pe. António Vieira; que cantarola Amália e grita "Viva o fado" (não ousei dizer que a senhora já não está entre nós); que esteve na festa da Quinta Patino; que importa bananas da Madeira e vinho do Douro; que dedilha "Barco Negro", "Coimbra" e "Verdes Anos"; que esteve em 'guimaranães' (sic).

Neste azimute improvável para a exegese da portugalidade, lembrei-me de Luanda, duma noite de fados na Ilha, em que alguém dizia, tombado pela noite e pelo tinto: "Até se vê Cacilhas do lado de lá!". Juro que dum canto da janela do restaurante Ambrosia, em Osaka, também se via a mátria. Estou como o O'Neill: Portugal é uma questão que tenho comigo mesmo.

26/09/2010

WENCESLAU DE MORAES, O PIONEIRO



"Tokushima, 14 de Dezembro de 1917

Eu mal já posso avaliar, pela grande distância e pela longa ausência, como as coisas vão indo na nossa terra. Mas inclino-me inteiramente para a sua opinião, e acho revoluções demais e heróis demais, e absoluta falta de juízo dos dirigentes e do povo. Creio que vamos indo muito mal, e ainda por cima com a ameaça de perdermos todas as nossas colónias, e até os Açores! A que estará reduzido o nosso país daqui a 20 ou 30 anos? Vê-lo-á V. Exa; eu não.(...)

Criado atento e obrigado

Wenceslau de Moraes".

Wenceslau de Moraes, Cartas do Extremo Oriente