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04/05/2011


Sumimasen (=ó faxe favor), era uma bica e um nata!




Não é preciso ir a Lisboa para comer um pastel de nata e um café depois de almoço - por incrível que pareça, isso é possível em Tóquio, naquela que é, aliás, uma das esplanadas mais simpáticas aqui. Fica na Omotesando e é um restaurante português chamado "Pérola do Atlântico". Tem um staff profissionalíssimo (como, aliás, aqui é hábito) e uma esplanada num 4º andar cheio de sol. Hoje só fui tomar café mas também tem bacalhau com natas, arroz de pato, feijoada à transmontana e bolo de mel da Madeira. Haviam de ver o ar deliciado do casal japonês ao meu lado a comer uma cataplana de marisco!



26/04/2011


25 de Abril em Tóquio










Jardim de Hamarikyu, antigo local de residência da família shogun Tokugawa no século XVII.


18/04/2011


TÓQUIO E O RIO SUMIDA




Há cidades que vivem casadas com rios - Lisboa com o Tejo, Paris com o Sena. Mas a comparação mais próxima aqui seria Nova Iorque com o Hudson, pela dimensão das cidades e dos rios envolvidos. Embora, na sua essência, a relação seja diferente. NI tem o Hudson uma relação patriarcal, dominante. O Hudson faz parte de NI mas é-lhe marginal. Há entre os dois uma relação de força de iguais - uma downtown viril que se prolonga num Hudson cheio de rebocadores (Hey, you wanna hear my philosophy of life? Do it to him before he does it to you., "Há lodo no Cais", Elia Kazan, 1954).

Tóquio é diferente - a cidade e o seu rio são potentosos mas o Sumida tem uma espécie de doçura feminina indisfarçável. O Hudson dá filmes e poemas modernos, o Sumida dá haikus de Basho (spring peace/ a mouse licking up/Sumida River). O Sumida prolonga a cidade mas transmuta-lhe a cor, embeleza-a, complementa-a. Em Tóquio, o Sumida canta uma melodia distinta (o Hudson complementa NI em improvizos jazísticos).



Vista de Kayabacho: ao fundo a Torre de Tóquio.



PS - Obrigado ao meu amigo OBD que me chamou a atenção que o texto publicado (e entretanto corrigido) tinha um clamoroso erro de geografia. Nada desculpa erro tão grosseiro a não ser uma enorme falta de atenção.

12/04/2011

A velha de chapéu preto que lia Rimbaud


Dia e noite de réplicas (mas eu prometi que não voltaria a este assunto), resgatado com um passeio de meia hora, noite avançada, para arejar e comprar um chocolate (“come chocolates, pequena, come chocolates, olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. Olha que as religiões todas não ensinam mais do que a confeitaria”). Passo em Roppongi e detenho-me por um instante em frente às vidraças do Almond.

(foi a JGC, que aqui viveu há uns anos, quem primeiro me falou do Almond, dizendo que era o ponto de encontro obrigatório da Tóquio dos anos 90)

Era quase meia noite e chovia. Caído o véu de certa hora, as esquinas de Roppongi enchem-se de meninas de generosidade farta e chulos de peso correspondente. Numa mesa encostada ao vidro, de vista debruçada para a rua, uma velha senhora de chapéu preto e flor branca (sakura!), bebericava um chá por uma xícara (a minha Avó dizia sempre xícara, Camilo também, não tem nada de brasileirismo) e lia poemas de Rimbaud em francês. Num pratinho cor-de-rosa, muito japonês, esperava um éclair. A xícara – agarrada com uma elegância que fazia lembrar Sophia – fumegava. Já não me lembro bem, mas acho que o livro de Rimbaud também.

07/12/2010


MOMENTO MARY POPPINS


Em frente à estação de metro de Hanzomon, Tóquio, Novembro 2010.

24/11/2010

Os urinóis do 38º andar



Nada marca tão profundamente a paisagem radicalmente urbana de Tóquio como as casas de banho do Hotel Mandarin Oriental. O que se vê na fotografia não engana – é o 38º andar, em cujas casas de banho, os urinóis (palavra horrível) foram montados encostados ao vidro. A sensação é um pouco estranha: dispenso-me de elaborar mas não será difícil perceber quão dispersa fica a atenção que se desejaria focada. Evidentemente, do ponto de vista arquitectónico joga-se aqui no plano da ambiguidade, potenciando um voyeurismo que encontra na imensidão das alturas uma desculpa que o redime. Por outro lado, explora-se, com inteligência, um momento de dupla fragilidade: o que advém dos contornos da fisiologia, aliado com a vertigem e o fascínio do abismo. Repito: a paisagem urbana de Tóquio toma conta de nós. Mesmo nos momentos inesperados.

25/10/2010

Lavadores de janelas



Foi no terraço do 55º andar do Mori-Building, em Roppongi, que os vi entrar numa caixinha pequena, onde mal cabiam dois homens de pé, mais os adereços (teriam medo?). Um guindaste de aço agarrava-os à vida, suspensos a muitos de metros de altura – 238, para ser rigoroso. Deviam ter frio, ali expostos a um vento inclemente que, do alto, varria a cidade. Eram dois pontos mínimos, suspensos no ar. Vivem onde os olhos não alcançam, estes aprendizes de pássaro. Qualquer dia vou candidatar-me a ser lavador de janelas em arranha-céus. Pintor do céu, para ver o mundo de cima, como os anjos.

21/10/2010

IR ÀS COMPRAS AOS ARMAZÉNS MITSUKOSHI (CHIADO, ANOS 80)



Quando eu era imberbe, ia-se ao Chiado às compras. Calcorreava-se a rua do Carmo e a rua Garrett, comia-se um croissant na Bénard, esperava-se que a Mãe comprasse umas louças no José Alexandre, viam-se as montras do Paris em Lisboa e acabava-se nos Grandes Armazéns do Chiado. Já nada disto faz sentido assim justaposto mas os anos 80 eram feitos destes retalhos. Passear em Tóquio nos armazéns “Mitsukoshi” é um pouco a mesma lógica. Naturalmente com outra dimensão, a loja existe desde 1673 (!), foi a primeira loja no Japão a oferecer serviços de entrega ao domicílio, a vender produtos importados (na era pré-Meiji), a ter um elevador e até 1923 os clientes tinham de se descalçar à porta e passear na loja de chinelos. As senhoras dos romances de Tanikazi iam às compras ao Mitsukoshi (v. “Naomi”). Hoje, os empregados conservam um certo ar “histórico” que dá patine aos armazéns Mitsukoshi. Têm um público próprio (diferente do que vai às compras a Ginza, a Shibuya ou a Omote-sando) e uma aura particular. Quase que cheira aos croissants da Bénard.

11/10/2010


FASTEN YOUR SEATBELTS: IT'S YOYOGI PARK ON A SUNDAY AFTERNOON

Between Harajuku and Yoyogi Park, on a Sunday afternoon, the crowd goes… different. It’s actually a strange fashion but in the end of the day, who is strange here? They are called the cosu-zoku, something like “costumes tribe” and the garments may go from an Elvis Presley’s style, to a porn hero; from a manga/ anime character to a local rock star; from a rocky horror picture show tribute to a god-knows-what thing. They make Yoyogi more than an ordinary park where Tokyoites go for a relaxing sunny afternoon. Yoyogi became a touristic spot but also a field of respect and indulgence. These characters are bright, with their big and round expressive eyes. Their smile is, on the contrary, a bit sad, even if they don’t oppose, in any circumstance, to be photographed as if they were part of an open-air museum. The weird thing here (but why weird if we think well?) is that they also show a deep sense of dignity and they are never close to be ridiculous.

I’m not a sociologist, so I’m not going to offer any explanation for this (even though some common places come to my head). But, as I walked among them, in Yoyogi, yesterday, I was sure that, at least once a week, these guys are enjoying freedom at its full extent. Lucky them.





























07/10/2010

TÓQUIO A MEUS PÉS





No bar do 45º andar do Hotel Ritz Carlton (para o get-together mensal do Young Diplomats in Tokyo), olho pela janela e lembro-me dum texto de Julio Cortazar, esse maravilhoso escritor argentino, nascido em Bruxelas porque pai era diplomata. Lembro-me dum texto dele chamado "A cidade adormecida" (cito de memória), sobre Buenos Aires vista dum 10º andar dum edifício. Dizia Cortazar que, vista de cima, Buenos Aires parecia à noite uma cidade tranquila, harmoniosa, silenciosa, embalada pela escuridão redentora. Fiquei por momentos ali a pensar se o mesmo se poderia dizer de Tóquio. E a resposta é negativa: nem vista dum 45º andar (dum 45º andar de cortar a respiração) esta cidade parece adormecida. Mesmo àquela altura, por detrás dum vidro que só convoca silêncios, Tóquio é, ainda assim, electrizante, arrancada para sempre dum repouso que não alcança.

(Vargas Llosa: pacífico e justíssimo. Não fosse Llosa andar metido pela política e já tinha ganho há anos. Duas notas pessoais: disse ao meu colega do Peru, ao meu lado na recepção, do prémio (ele não sabia, estávamos ali ao mesmo tempo que saiu o anúncio) e o homem rejubilou. Foi do comité de apoio a Llosa quando ele se candidatou à presidência peruana e aproveitou para dizer que finalmente a Academia tinha deixado de premiar comunistas (sic). Segunda nota: fui um convertido tardio a Llosa porque sou céptico relativamente à literatura latino-americana. Puro preconceito meu. Foi o Luis Gaspar da Silva quem me alertou, em Luanda, que Llosa não era daquela "escola regional" e me emprestou uns livros. Recordo do encantamento quase infantil com que li "Conversas na Catedral).

24/09/2010

Tóquio e os mitos urbanos





Todas as cidades têm mitos urbanos e Tóquio não é excepção: a estátua do cãozinho que aqui se vê - e que está em Shibuya - é o mais paradigmático do diz-que-disse desta cidade. Todas as manhãs, diz a lenda, o fiel Hachiko acompanhava o seu dono, o professor Ueda Eisaburo, até à estação de comboios e todos os dias, ao entardecer, ali o ia esperar para o acompanhar no regresso a casa. Num triste dia, em 1925, o professor Eisaburo teve um ataque de coração e morreu na universidade o que, como se compreende, o impediu de voltar a casa ao final desse negro dia. Mas o bicho esperou, esperou e todos os dias, durante vários anos, foi para a estação à espera do dono que teimava em não regressar. Hachiko morreu em 1934 e diz-se que nesses nove anos nunca falhou o sempre adiado reencontro com o seu dono. Tolhida pela emoção duma estória que a todos tocou, o cão foi feito estatuária e ali jaz, à porta da mega-estação de Shibuya. Os detractores desta estória dizem que Hachiko só ia até à estação porque a loja do canto lhe dava de comer e há até quem afiance que, morto o bicho e dissecadas as entranhas, ali se descobriram os paus das espetadas da loja vizinha.

(a estátua que se vê é a segunda porque a primeira foi derretida no tempo da guerra para fabrico de armas pelo que o pobre Hachiko nem depois de morto teve sossego...)

23/09/2010



Shibuya, os corpos e Don DeLillo











Em Setembro de 2001, no seguimento do caos que se instalou nos aeroportos, perdi, numa sala de embarque do aeroporto de Zurique, um livro de me tenho lembrado por estes dias - "O corpo enquanto arte", de Don DeLillo. Foi isso que me veio ao espírito, sentado numa mesa do Starbucks de Shibuya, num 2º andar, a observar "o" cruzamento. Sim: "o" o cruzamento. Aquele é o cruzamento do mundo. Ao sinal verde a mole avança como um corpo só. E é justamente isso que torna aquele um dos mais singulares de todos os lugares: a multidão despedaçada que se junta à beira duma passadeira e avança, num caminho de quase reencontro, como ao som duma orquestra dum bailado clássico, caminhando como pedra bruta, única, inconsútil. Só observadores distraídos poderiam dizer que em Shibuya se celebra a desordem da cidade. Não: no cruzamento de Shibuya resgata-se uma estética que alguns têm julgado perdido nas malhas intrincadas do fascinante tecido urbano. Nos milhões de pessoas que diariamente atravessam o cruzamento pentagonal de Shibuya há milhões de estetas protagonistas do que há de mais raro, e, por isso, de mais precioso, no estranho mundo da contemporaneidade: o confronto com a beleza extrema.

(1ª sequência de fotografias: um minuto de travessia em Shibuya durante o dia; 2ª sequência: o mesmo à noite)









21/09/2010


Tokyo, some more shots



From the very little corners of some shrines to the imposing image of the skyscrapers, this a contrasting town. Ancient and contemporary, old and new, small and big, they all co-exist challenging our daily look. Unlike some other cities - Paris or Rome are the examples here - Tokyo doesn't have an "easy beauty". Maybe it's not even beautiful. But it's interesting and demanding. That's the word for now: the city I now live in is very demanding. I like that. I hope I will cope with that. I'm sure I will.











20/09/2010


Tokyo - going around the town, first photos


Long weekend here (today was a bank holiday, "Respect for the Aged Day"), so during these days I just walked around some parts of the town (from the slightly trashy Shinjuku to the bourgeois Ginza; from the top elegant Omotesando to the adorable kitsch Shibuya - my favourite, BTW). The city is enormous and I feel that I will need weeks, if not months, to grab it. No museums, no special spots, no particular visits. Just going around to capture the atmosphere of the town (very post-modern), its vibration (very intense), colours (very large spectrum), smell (a mix of urban and sweet) and people (very... different). I will come to all these at a later stage but for now, just a couple of snapshots. More will follow in the coming days.