ICONOGRAFIA APROXIMADA
05/06/2011
DOMINGO DE VERSOS - William Butler Yeats
How can I, that girl standing there,
My attention fix
On Roman or on Russian
Or on Spanish politics?
Yet here's a travelled man that knows
What he talks about,
And there's a politician
That has read and thought,
And maybe what they say is true
Of war and war's alarms,
But O that I were young again
And held her in my arms!
William Butler Yeats, Politics
26/05/2011
Gonçalo M. Tavares, o ardiloso
Cohen era assim uma pessoa solitária e por isso recebeu com certa estranheza o convite de um homem, Diamond, que vivia em Londres - convidava-o para passar duas semanas em sua casa. Tinham-se conhecido numa conferência onde os tiques de Cohen em poucos minutos haviam ficado totalmente expostos. Os seus involuntários gestos obscenos eram pois bem conhecidos de Diamond.
Diamond era o primeiro a convidar Cohen para umas vulgares férias em conjunto. Cohen hesitava.
Gonçalo M. Tavares, Matteo perdeu o emprego
25/05/2011
24/05/2011
Carta de guia para eleitores, em que se trata da opinião pública, das qualidades para deputado, e do modo de as conhecer
ou
Profilaxia para uma Campanha eleitoral

Senhor Presidente - continuou o orador, tomando rapé com a sofreguidão de quem teme que o raio inspirativo se arrefente - senhor presidente! Eu tenho o desgosto de ter nascido num país em que o mestre-escola ganha cento e noventa réis por dia, e as cantarinas, segundo me dizem, ganham trinta e quarenta moedas por noite. Eu sou de um país, senhor presidente, em que se pede ao povo o subsídio literário para pagar com ele as tramóias da Lucrécia Bórgia. Eu sou de um país pobríssimo, em que a veia da nação exangue sofre cada ano a sangria de algumas dúzias de contos para sustentar comediantes, farsistas, funâmbulos e dançarinas impúdicas. Senhor presidente, V. Exa. sorriu, vejo que a câmara está sorrindo e eu ouso dizer a V. Exa. e aos meus colegas, como o poeta mantuano: sunt lacrimae rerum. Aqui é o ponto de se carpirem por seus filhos aqueles que se cuidam muito avantajados em civilização a seus avós.
Camilo Castelo Branco, A Queda dum Anjo
05/05/2011
SAUDADES DE LISBOA

Pelo que leio por aí a Feira do Livro de Lisboa deste ano está marxista: há pavilhões Fauchon e pavilhões LIDL. Será inevitável quando o mercado livreiro português se está a "super-mercantilizar". Por mim, tenho pena. Gosto daquelas filas de pavilhões todos iguais, que me habituei a visitar desde miúdo de mãos dadas com os meus Pais. Há coisas que ficam para a vida.
25/04/2011
06/04/2011
José Mário Silva revelou (aqui) há dias, no Festival Literário da Madeira, aquele que é o segredo menos bem guardado do meio literário português: o mito das letras contemporâneas que é Aurelino Sousa Gomes.
Sousa Gomes nasceu no Funchal nos anos 20 do século passado e tem – diz-se – das obras mais prolíficas dos últimos 100 anos em Portugal. Nunca publicou uma linha, pese embora insistências de todos os azimutes. Mantém correspondência com o espanhol Enrique Vila-Matas depois de o ter ameaçado espancar numa ruela de Barcelona. Não se sabe se conserva uma arca pessoana, se queima em noites frias os cadernos que nunca escreveu, se grava textos num gravador antigo ou se, pura e simplesmente, escreve em toalhas de papel de restaurantes de peixe sobranceiros ao mar de Porto Moniz.
Mário Silva conheceu pessoalmente Aurelino Sousa Gomes, que era amigo do seu avô paterno. Não tive tal sorte.
Ouvi pela primeira vez falar de Aurelino no Verão de 1999: cansado da minha tese académica e da prosápia jus-positivista, fugi para a Madeira por quatro dias. Na véspera de regressar a Lisboa, esperei à porta da Sé do Funchal por José Tolentino de Mendonça. Chegou com minutos de atraso para me resgatar ao spleen ilhéu, estando eu ali, encostado à caliça clerical a ler a “Baía dos Tigres”, de Pedro Rosa Mendes. Tolentino levou-me a jantar ao Machico e, à saída do Funchal, passando nós por um casario rasteiro, disse-me: “Naquela casa nasceu o Aurelino Sousa Gomes, conheces?”. Não conhecia, nem o nome me dizia um átimo. O poeta-padre explicou-me então quem era Aurelino, o mito que se criara em torno dele e a diferença imensa face à inevitável comparação com Herberto Helder. Ao contrário de HH, Aurelino recusava obstinada e continuamente publicar, não se lhe conhece uma única fotografia, ninguém do meio literário lusitano alguma vez chegou à fala com ele. E, no entanto, todos já ouviram falar dele, mas em sussuro velado e desmentido.
Curiosamente, acabei por vir ouvir falar de Aurelino Sousa Gomes num final da tarde em Tóquio. Numa recepção social, dessas que se prolongam para lá do que seria a vontade dos anfitriões e que recomendaria o pundonor social, dei por mim à conversa com um professor japonês, lusitanista e académico numa universidade da capital. Embalado por um Porto seco, perguntou-me por Aurelino. Não escondi a surpresa: como era possível que em azimute tão remoto um académico, mesmo estudioso da portugalidade, conhecesse um escritor fantasma? Explicou-me que se tinha doutorado em Coimbra, com uma tese sobre a escrita insular portuguesa. Partira de Antero para chegar a Natália, mas passando também pela Madeira, pelos versos de José Agostinho Baptista e, claro, por Tolentino e Herberto. Concluira que as marcas da insularidade têm traços comuns entre os nossos dois arquipélagos (o mar, o isolamento, a partida) mas dissemelhanças não menos fortes (traços psicológicos mais introspectivos nos Açores; uma maior reconciliação com a ideia de ausência no caso da Madeira). Alongou-se em detalhes para me dizer que tinha passado uma temporada de investigação no Funchal e que tinha recorrido a todos os meios para chegar à fala com Aurelino. Não conseguiu e trouxe consigo essa frustração: diz-me que sente que a sua tese não está acabada por lhe faltar esta palavra que nunca conseguiu arrancar ao escritor que fez da fuga um estilo e uma opção de vida.
Foi sobre este homem mistério que José Mário Silva falou no FLM há dias, trazendo luz sobre um nome que todos admiram mas que ninguém conhece. Falou-se dele por uns dias mas tudo voltará ao mesmo silêncio de sempre. Por agora, José Mário Silva conseguiu algo inédito – recebeu um telegrama de Aurelino, que é, salvo erro, o único mas mesmo o único texto aureliano que alguma vez viu a luz do dia. Pode ser lido aqui.
(desenho de Pedro Vieira)
02/02/2011
Portugal a 10 000 quilómetros visto pela TVI

Já não bastava ver às 22h o jornal televisivo das 13h que é sempre fraquinho. Ainda por cima, por uma razão informática que me escapa, não consigo ver online outro canal senão a TVI... Posso, portanto, não estar informado sobre as reacções do mercado à venda de bonds e o rating da República mas sei tudo sobre o crime luso de Nova Iorque ou a velhinha roubada em Vila Nova de AiJesus.
Vantagem: janto com música e sem televisão porque a essa hora está o Manuel Luís Goucha a cofiar o bigode em directo. A diáspora não merece isto.
04/12/2010
12/11/2010

Passámos anos sem saber o teu nome, de onde vinhas e por que o fazias. Reparámos no teu porte aristocrático, nos óculos grossos, no sorriso rasgado, no chapéu de chuva abengalado que tantas vezes trazias e que te equilibrava nas vertigens da noite. Lembro-me de ti desde os anos 90, no regresso de uma rota fixa às 4ª feiras à noite, em frente ao Sheraton da Fontes Pereira de Melo. Tinhas sempre um cachecol branco e acenavas, acenavas, acenavas. Hoje penso que não me perdoo pelo facto de nunca ter parado para falar contigo. Fizeste da nossa Lisboa um recanto onde se murmuram palavras cujo significado só nós sabemos. Hoje é a nossa vez de te dizer adeus, acenar para espantar o silêncio, como costumavas dizer. Talvez num aceno, no aceno de hoje, esteja também contido um “até já”.
04/10/2010
De Lisboa a Osaka são 11072 quilómetros de distância: há que vencer muitas montanhas, galgar muitas estepes, dobrar muitos bojadores. É por isso que olho com a surpresa dos puros para uma sala cheia de gente, em Osaka, a celebrar Portugal. Gente que me fala num português que me custa a entender (mas muito melhor do que será alguma vez o meu japonês); gente que bebe vinho do Dão; que me pergunta pela Expo98; que cita Camões e Pe. António Vieira; que cantarola Amália e grita "Viva o fado" (não ousei dizer que a senhora já não está entre nós); que esteve na festa da Quinta Patino; que importa bananas da Madeira e vinho do Douro; que dedilha "Barco Negro", "Coimbra" e "Verdes Anos"; que esteve em 'guimaranães' (sic).
Neste azimute improvável para a exegese da portugalidade, lembrei-me de Luanda, duma noite de fados na Ilha, em que alguém dizia, tombado pela noite e pelo tinto: "Até se vê Cacilhas do lado de lá!". Juro que dum canto da janela do restaurante Ambrosia, em Osaka, também se via a mátria. Estou como o O'Neill: Portugal é uma questão que tenho comigo mesmo.

