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03/05/2011



Dr. Takeshi Kanno, Time List of the Most Influential People in the World





Takeshi Kanno always knew he would save lives in his line of work — but never as many at one time as he did on March 11. The 31-year-old doctor was on duty at the Shizugawa public hospital in the Japanese town of Minami Sanriku when he heard the tsunami alert. He immediately began moving patients to the highest floor, helping dozens of people in the short window between the 9.0-magnitude quake and the deadly wave. When the wall of water arrived, Kanno watched it swallow the street in three minutes, taking the patients he couldn't move with it. "We went downstairs, and everyone was gone," he says.

Over the next two days, Kanno refused to leave those he'd helped survive. When evacuation helicopters arrived, he waited until the last of his patients had gone before he too left. Three days after the quake, he at last made it back to his wife, just hours before the birth of their second child, a boy they named Rei. The name evokes two meanings: in English, a beam of light; in Chinese and Japanese, the wisdom to overcome hardship.

Time Magazine, May 2nd, 2011

Full list of the most of the most influential people can be seen
here.


11/04/2011

Obrigado Irene

Nunca umas bolachas me souberam tão bem!


01/04/2011


Estrada para andar (e ponto final nos posts sobre o sismo)


(salvo acontecimentos supervenientes ou alguma coisa digna de registo, este é o último desta série de posts sobre o sismo de 11 de Março. A vida continua e este blog também.)

Há dias dei por mim a pensar nisto: os portugueses chegaram ao Japão em 1543, faz por agora 468 anos. É muito ano, dir-se-ia, quando na verdade é um instante se tivermos das coisas aquela perspectiva sábia que têm os magos orientais que diziam preferir não opinar sobre a revolução francesa porque tinha sido há muito pouco tempo. Quase 5 séculos por aqui e o que me ocorreu pensar foi: é preciso azar para estar aqui justamente quando no Japão ocorre o pior sismo de sempre e o quinto pior sismo da história, desde que há registos. Mas não adianta deter-me nestas elucubrações: feliz por as fazer sentado na tranquilidade do meu sofá. Três semanas depois, os dias correm velozes, Tóquio regurgita, multidões circulam, entoam-se cantos e proclamam-se juras, voam gestos e olha-se para trás concluindo que foi preciso isto, foi preciso este passo, porventura duro, para, como o poeta-engenheiro-decadentista-e-futurista-às-vezes, “sentir tudo de todas as maneiras”. Viver o inesperado, caminhar sobre um chão de que me aproprio, ser espectador e testemunha de dias que trazem sofrimentos indizíveis sabendo que só isso, só mesmo isso, pode, por mais paradoxal que pareça, ser peça clarificadora para a leitura do esplendor do mundo.


31/03/2011

Lisboa 1755 - Japão 2011: reler Voltaire


Logo em Dezembro de 1755, um mês depois do terramoto de Lisboa, pôs Voltaire seu doce Cândido a passear sobre as cinzas de uma Lisboa em pó: aquele que proclamara o melhor dos mundos - uma atitude que não era apenas pessoal mas uma postura de vida, um posicionamento filosófico banhado no ar do tempo - via agora abalado não apenas o chão que pisava mas as próprias estruturas de pensamento. Sabe-se o quão importante foi o sismo dessa madrugada de Todos os Santos para reformular a filosofia europeia na segunda metade do século XVIII.

Os tempos são outros, é certo; e outros são os homens, as latitudes, as crenças e as filosofias. Mas lembrei-me de Voltaire ontem quando vi imagens de casas, estradas e portos já reconstruídos e operativos, menos de 3 semanas depois do pior sismo da história do Japão. E não foi preciso um Marquês de Pombal - um visionário - a ordenar justiça e ditar a ordem. Os japoneses são resilientes e é nessa resiliência que reencontram o caminho que nós, ocidentais, nos apressamos a julgar perdido. Por aqui não se viram - como seria normal na Europa - dias de luto, cerimónias fúnebres, exercícios colectivos de exorcização da dor e do luto. E lembro: no momento em que escrevo são 27 500 os mortos e desaparecidos. Sofre-se na intimidade e renasce-se como povo.

Hoje fui reler Voltaire e ecoa-me sem cessar o seu verso em "Poème sur le désastre de Lisbonne" (capa em cima): Je suis comme un docteur ; hélas ! je ne sais rien.

30/03/2011


348 + 1 réplicas






Volto ao tema das réplicas: tudo aponta para que tenhamos de viver com elas durante bastante tempo e o melhor mesmo é criar habituação. Por razões higiénicas, há que mudar a água do copo-sismógrafo-improvisado mas não se vislumbra que o copinho possa ser devolvido ao armário onde habitualmente pernoita. Desde o dia 11 de Março, houve 348 réplicas de, pelo menos, escala 5 (posso garantir: o suficiente para acelerar um nadinha o ritmo cardíaco...).

Tenho andado a ler e o que aqui se vive corrobora: várias réplicas com intervalos de minutos ocorrem na hora subsequente ao grande sismo (bem o senti, eu e as centenas de pessoas que estavam no páteo da escola de Kojimachi, para onde fomos); aumento progressivo de intervalos nas 24 horas seguintes mas uma média de 30 minutos (assim foi: na primeira noite acho que ninguém dormiu em Tóquio); diminuição progressiva ao longo da primeira semana mas possibilidade de ocorrência de réplicas que podem ser de magnitude elevada (5 dias depois houve um sismo médio em Shizuoka). A tendência, dizem os especialistas, é - espero que não se enganem - de diminuição progressiva da intensidade das réplicas mas com a ressalva que podem continuar durante meses, senão mesmo anos.

Na 6ª feira passada, também tive a minha réplicazinha particular: estando num jantar com um francês, e virando por instantes a agulha da língua de Shakespeare para a língua de Molière (como diz o meu amigo PS), diz-me ele que, apesar de eu falar bem, nota-se um forte sotaque belga. Já é a segunda vez que me dizem isso em pouco tempo mas nunca tinha acontecido, como agora, ao fim de apenas 3 frases... Désolé. Ou como se diz em típico patois bruxelense: "xai pas vous aider"! Tirar o homem de Bruxelas é definitivamente mais fácil do que tirar Bruxelas do homem.

29/03/2011

O que salvaria de sua casa em caso de catástrofe?


No dia 11 de Março cheguei a casa já madrugada dentro. Ao chegar à porta do prédio, constatei que me era exigido mais um esforço: os elevadores não funcionavam, pelo que era preciso subir a pé. Comecei então a pensar sobre o que iria encontrar em minha casa. Isso já me tinha ocorrido vagamente durante a tarde mas sem tempo para reflexões profundas. Agora, ao subir umas centenas de degraus, ia passando em revista as possibilidades: livros derrubados das estantes não suscitam preocupação (e confirmou-se: estavam no chão mas incólumes), quadros caídos das paredes implicam no máximo molduras ou vidros partidos (assim foi: um vidro rachado), jarras ou objectos decorativos são sempre substituíveis (uma jarra partida efectivamente), loiça feita em cacos tem destino evidente (nem um copo se partiu), molduras podem cair mas não se estragam (apenas uma moldura descolada). Pensei, em breves segundos: os estragos não podem ser muitos.

Na verdade, a única coisa que me preocupava era o computador portátil. Se pensarmos no valor individualmente considerado, nem é o "objecto" mais caro que tenho em casa. Mas pensar que poderia estar danificado foi motivo de alguns minutos de angústia: são centenas de fotos dos últimos anos (já gravei todas em CD à cautela...), documentos, projectos e textos em que estou a trabalhar (já fiz backups em vários sítios), é a linha skype para falar para o mundo, os meus mails a qualquer hora do dia ou da noite, a janela do FB, o twitter, a possibilidade de trabalhar em casa, o estar contactável em permanência (o que foi fulcral nesta crise)...

Quando abri a porta, corri para a mesa de trabalho: o meu laptop estava tranquilamente firme no sítio onde o tinha deixado de manhã. Indiferente aos livros pelo chão, à jarra feita em cacos e ao saco do lixo espalhado na cozinha. O mundo continuava à distância dum teclado.


28/03/2011

Máscaras, mascarilhas, medo nuclear e a rainha Santa Isabel


Mais de duas semanas depois do sismo de 11 de Março, a grande preocupação que chega à Europa é a radioactividade. O problema existe? Sem dúvida que sim. Mas longe, muito longe, da forma como é retratado na comunicação social europeia. Alguns dados objectivos para sossego lontano: o nível de radioactividade em Tóquio é, apesar de acima do que era antes do problema com a Central de Fukushima, muito baixo. A semana passada, o nível em Tóquio era equivalente a algumas capitais europeias e mesmo abaixo de algumas delas. Para os mais desconfiados, acrescento que são dados de medições europeias e não japonesas.


Isto é notícia? Não é. E como não há nada de mais excitante (uma guerrazita na Líbia não vende tão bem como um "apocalipse nuclear" - palavras da Newsweek a cavalgar declarações bombásticas de responsáveis bruxelenses), eis agora que a excitação anda em torno das pessoas em Tóquio que usam máscara.

A ver se nos entendemos com isto: em Tóquio, e na Ásia em geral, o uso da máscara no espaço urbano generalizou-se há muito. Em primeiro lugar por causa do receio de vírus e doenças (a célebre gripe SARS teve um papel fulcral aqui). Depois, por uma questão de civismo. Qualquer pessoa que esteja constipada ou numa ressaca de gripe põe de imediato uma máscara para evitar contaminar quem está à volta (as pessoas aqui vivem muitas vezes compactadas no metro ou no local de trabalho). Depois, de há uma semana para cá, viu-se, efectivamente, um aumento das máscaras. Medo do nuclear? Não. Medo do pólen. A primavera está a começar em força, há milhares de flores a despontar e há nuvens de pólen que provocam alergias. Para se protegerem, as pessoas usam a máscara preventivamente, em vez de se enfrascarem em anti-estamínicos posteriormente. Finalmente: uma revista trazia outro dia (antes do terramoto) uma reportagem onde se explicava que o uso desta máscara se tornou uma espécie de moda entre grupos de adolescentes e jovens, um sinal de tribo, marca distintiva que confere ao grupo um signo próprio e que mascara uma timidez por vencer.

Por isso, quando virem prosa debitada por pena europeia que descreve um povo amedrontado pelo inimigo invisível que vem de Fukushima, desconfiem. Não é o nuclear. Como diria a rainha Santa Isabel: são as rosas, Senhor.

26/03/2011

A NORMAL SATURDAY - 15 DAYS AFTER THE EARTHQUAKE

For the first time since March 11th, I can go out and buy the...



... as well as some...


I finally enter a bookshop to see the new arrivals...



...and seat for a coffee.



But still, I am not more than 10 minutes without checking my...

25/03/2011


AS MÚLTIPLAS LEITURAS SOBRE O FUMO BRANCO



Num grupo antes de começar uma reunião: eu e os colegas sueco, finlandês, dinamarquês, irlandês e espanhol. O sueco lê do iPhone as últimas notícias da Central de Fukushima: durante várias horas saiu fumo negro do reactor 2 mas na última hora, transformou-se em fumo branco (o que é um bom desenvolvimento). Alguém diz:

- Well colleagues, habemus papam...

O espanhol, o irlandês e eu rimos até às lágrimas perante o ar atónito dos nórdicos.

Sou laico até à medula mas convenhamos que isto de representar uma nação de história fidelíssima tem que se lhe diga. Uns percebem, outros não.

24/03/2011


Muitas teses, algumas antíteses e todos os dias em busca da síntese



É difícil gerir a informação, separá-la dos rumores, contrariar a contra-informação, distinguir factos de opiniões e ver para lá do muito nevoeiro que estes dias têm produzido. Diz-se de tudo em todos os sentidos porque todos estamos diplomados à pressa em ciências que há escassas duas semanas faziam para todos parte do domínio do ocultismo. Hoje todos os “toquioitas” sabem o que são os becquerels, os microsieverts, o iodo 131, os raios gama e a fissão nuclear. Há quem diga que fervendo água ou filtrando-a se diminuem os níveis de becquerels mas há quem diga o contrário. Há quem beba água e há quem nem a cheire. Há quem ande de metro e quem tenha medo de estar “lá em baixo”. Há quem diga que o pior já passou e há quem durma vestido por receio de ser apanhado em fuga de pijama. Há quem mantenha um semblante carregado e quem consiga dar gargalhadas. Há quem comece todas as frases com “eu estou calmo mas...”, há quem coma compulsivamente, há quem emagreça com os nervos. Há quem fale de energia nuclear como os comentadores televisivos falam de não-importa-o-quê: com a segurança que impressiona os incautos de mãos dadas com a leveza dos neófitos. Tóquio, por estes dias, fez-me lembrar Cesare Pavese, no poema "Wind of March":


Sei la vita e la morte.
Sei venuta di marzo
sulla terra nuda -
il tuo brivido dura.
Sangue di primavera
- anemone o nube -
il tuo passo leggero
ha violato la terra.
Ricomincia il dolore.
Il tuo passo leggero
ha riaperto il dolore.
Era fredda la terra
sotto povero cielo,
era immobile e chiusa
in un torpido sogno,
come chi più non soffre.
Anche il gelo era dolce
dentro il cuore profondo.
Tra la vita e la morte
la speranza taceva.

23/03/2011

Um sismógrafo dentro do peito



O meu colega sérvio foi o primeiro a confessar: I am always feeling earthquakes. Depois dele, todos admitiram o mesmo. Fui ver o que se diz na literatura especializada e parece que esta reacção é vulgar a quem passa pela experiência dum grande terramoto. Por um lado, desenvolvemos uma hipersensibilidade e, por isso, detectamos as réplicas como se tivéssemos um sismógrafo dentro do peito. Por outro lado, há um factor psicológico que faz com que estejamos a ver terramotos onde eles não existem. Era justamente a este segundo caso que se referia o meu colega sérvio perante o olhar concordante de uma plateia que não ousara verbalizar o mesmo. Dar uma ordem de impressão de um documento faz tremer a mesa, logo, terramoto. Passa um autocarro, o chão treme, logo, terramoto. O vento abana as árvores, logo, terramoto. Estamos todos aqui a fazer um curso acelerado de sismografia e, na impossibilidade de ter aparelhos sofisticados em casa, todos recorremos ao mesmo artefacto: um copo com água em cima da mesa para o qual se olha. Se a água começa a mexer, é mau sinal. Mas também é verdade que esta hipersensibilidade vai de mãos dadas com uma resistência a que todos nos habituámos já. Como dizia um outro colega, “por menos de um grau 4 já nem me levanto da cadeira”.

22/03/2011

SISMO NO JAPÃO - Percepções



Aquilo que se viveu em Tóquio no dia 11 de Março às 14h46 é uma experiência que não desejo a ninguém. E não posso imaginar o que terá sido estar em cidades como Sendai ou Fukushima onde o sismo se sentiu de forma ainda mais forte e onde um tsunami (mais do que o sismo) semeou a morte.

Quem aqui vive sabe que à distância, na Europa, também as pessoas viveram coladas à TV e à net seguindo uma dor distante que se fazia própria e que a distância acentuada cavou em angústia. Isso percebe-se bem. O que se percebe menos é a onda de histeria, sensacionalismo, exagero e falta de rigor que perpassou na comunicação social europeia (já para não falar da irresponsabilidade de dirigentes políticos a falar de “apocalipse”). Vi directos na TV portuguesa onde se falava insistentemente de Chernobyl (a comparação não tem nada mas mesmo nada a ver do ponto de vista técnico) e se elencavam as ameaças a que Tóquio está sujeito, referindo o Monte Fuji (o Monte Fuji???). Li bloggers encartados a dizer que em Tóquio foram encerradas 200 linhas de metro (Tóquio tem 15 linhas de metro e, tirando nas horas imediatamente a seguir ao sismo, estiveram sempre a funcionar) e que Tóquio é uma cidade-fantasma (há milhões de pessoas a passear e às compras).

Sei de vários portugueses aqui residentes que falaram para as TV’s e jornais e que transmitiram justamente uma nota contrária: sem negar a gravidade da situação, sublinharam (e muito bem) o regresso progressivo a uma certa tranquilidade, aos ritmos da vida quotidiana que – sem dúvida – está afectada mas que se impõe com o passar das horas.

Mas sei também de um caso de uma portuguesa que, contactada por um jornalista não-português (sublinho: não português), explicou que poderia dar o seu testemunho relativamente à serenidade com que tudo está a ser vivido e ao facto de Tóquio praticamente não ter problemas. Responderam-lhe: “OK, deixe estar, vamos contactar outra pessoa”.