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27/04/2011


O AMANTE




Vejo-o todos os dias na reunião. Senta-se sempre no mesmo lugar, na última fila. Entra com o porte majestático de quem transporta confiança em si e no mundo. O ar exótico inspirado em misticismo oriental é temperado pelo corte impecável de fatos ingleses e gravatas italianas. No cabelo, o excesso de brilhantina não chega a comprometer a pose. A elegância, como qualquer elegância digna desse nome, é estudada ao ponto de parecer descontraída. Ouve o que se passa com ar ausente mas firme. Poderia estar a fumar uma cigarrilha, se acaso déssemos com ele de fato de linho branco encostado à balaustrada de um navio ao largo da Indochina.

Sabia que o conhecia. Mas quem era? Ao fim de várias semanas percebi que fugira das páginas de Duras e era, afinal, o comerciante rico de “L’Amant”. Nem sei como se chama mas agradeço-lhe ter-me recordado uma das frases mais belas da história da literatura: Très vite dans ma vie il a été trop tard.


14/04/2011

GANDHI WAS GAY? AND WHO CARES?



Num grupo saturado de conversas sobre sismos, tsunamis e nucleares, alguém lançou a pergunta: “what do you think about this new book claiming that Gandhi was gay?” Sentiu-se um gelo muito próximo daquele momento em que o escritório começa a abanar. Colega sentido protestou com uma convicção que ia claramente para além do que o zelo profissional recomendava. De repente ficámos todos a discutir um livro que, por acaso, ninguém tinha lido. Por isso todos os argumentos – sejam em que sentido – perdem razão, lógica e pertinência. Atacar ou defender um livro em que ninguém tocou é um exercício pouco sério mas em que também colaborei naquele momento.

É evidente que, do ponto de vista biográfico, pode fazer sentido defender tal tese (ou o seu inverso), se ela tiver uma sustentação factual séria baseada em documentos. Por isso a discussão, como foi posta entre nós, estava enviezada. O meu ponto na discussão entre uma audiência que nem sabia o nome do autor do livro era: a pergunta que se pode fazer não é “was gandhi gay?”. A pergunta que se deve fazer é “who cares if Gandhi was gay?”.

Além de que, pelo que li em fontes alheias, esse nem é o ponto verdadeiramente controverso do livro. Seja como for, se a Amazon não falhar, 2ª feira já o livro deve cá estar
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31/01/2011


Abertura da Sessão Legislativa na Dieta



Estive a semana passada na Dieta para a cerimónia de abertura da 177ª Sessão da Dieta (o parlamento japonês). Uma cerimónia impressionante que leva a rigor um ritual performativo pensado ao segundo e onde, salvo os partidos da extrema-esquerda, se sente interiorizado o respeito por um conceito de soberania que passa, quase exclusivamente, pela figura do Imperador ("a soberania una e indivisível que reside no povo" é invenção das cabeças não decapitadas na comuna de Paris...).

Sentado nas galerias, onde estão os convidados, não deixa o visitante de se impressionar - e muito - com a imagem de ver 480 deputados e uma vintena de governantes vestidos a rigor (eles de fraque; elas de quimono) que, ao soar da batida, se levantam e se inclinam naquela vénia vincadíssima que se reserva para o Chefe de Estado. O Imperador Akihito entra na grande sala da Câmara dos Representantes e, passos pequenos, dirige-se para o trono imperial perante meio milhar de súbditos que não mexem um músculo perante alguém que, há pouco mais de 60 anos, se cria que tinha um poder directamente transmitido por deus.

A cerimónia dura exactamente 7 minutos: um minuto de vénias; dois minutos de discurso do speaker; três minutos de discurso do Imperador e um minuto final de mais vénias e saída.

Durante aqueles minutos sagrados da liturgia democrática, quase se ouve o palpitar dos corações presentes tal é o silêncio que só a oratória imperial e o disparar das máquinas fotográficas interrompe.

22/12/2010

A LITURGIA MULTILATERAL



Padres por esse mundo fora enceram os soalhos dos templos, puxam o brilho à talha dourada e preparam-se para queimar o incenso em vésperas da noite em que todos assolam à igreja, mesmo aqueles que passam ao largo o ano inteiro. Eu já tive a minha dose de liturgia adventícia, com 48 horas fechado numa sala de reuniões a discutir o futuro de não importa agora o quê. Já tinha saudades: noite dentro a fazer drafting, pausas para consultas em cada duas horas, delegados a dormir nos corredores, doses reforçadas de café, computadores que projectam textos enormes até inexplicavelmente deixarem de funcionar, intérpretes com horários incompatíveis com a música que aqui se baila, secretariado a fazer milhões de fotocópias de drafts que acabarão no lixo, desfolhar de calhamaços à procura de agreed language, dramas, ameaças e crescendo de tensão. Até tudo acabar bem, numa sessão plenária cuja hora nunca tem nada a ver com o inicialmente previsto. Há todo um rito a cumprir para subir a este quase-Golgota. Esta minha vida começou no multilateral e parece mesmo que não há amor como o primeiro.

08/10/2010

O mundo começa nos Urais?



Um grupo como o dos Young Diplomats in Tokyo tem o mérito de romper com um círculo de cristos auto-anunciados, dedicados a um círculo infernal de reuniões, papéis, grupos de trabalho e colóquios. O grupo era divertido: havia um colega do Médio Oriente, de magreza monacal e olhar esbugalhado; uma outra, europeia, de uma fealdade arrepiante mas submersa em adereços; um caribenho de rosto magérrimo lançava um olhar de excitação pouco contida sobre uma africana do norte que bebericava vinho tinto sem se dar conta que estava a ficar com o facies cada vez mais rosado; um sul-americano coçava a barbicha e dizia continuamente “si, si, si”; um do mesmo continente dissertava sobre política externa mas ninguém o queria ouvir; uma eslava, fumava com uma elegância ultrapassada umas cigarrilhas finíssimas que cheiravam a prados e flores; outra, mais do oriente, ria-se como se lhe fizessem cócegas, ao mesmo tempo que distribuia cartões de visita com a solenidade própria de Versalhes perante um interlocutor africano de elegância estudada.

Olhar o mundo para lá da Europa é obrigatório e é no confronto com esse universo que se percebe como somos pequenos e mais ou menos iguais. Acho que aprendi isto (também) com VBR.



05/10/2010

AGUSTINA: uma tarde com a imperatriz em dia de república



"Domingos também esperava alguém. Era Yin, uma mulher a quem servia há quase dois anos e a cujos filhos fora ensinando a sua língua, com uma hesitação afectada que a outros olhos mais práticos denunciaria um fundo de ignorância. E não se sabe. Yin era uma mestiça de sangue amarelo e que desempenhava na capital o lugar de sereníssima esposa dum desses pequenos, fugidios, intranquilos diplomatas que representam por si só uma raça de burocratas da inteligência das nações".

Agustina Bessa-Luís, Ternos Guerreiros