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17/06/2011






ATHENS: from Christ crucification to make love not war








foto de Yiorgos Karahalis, para Reuters













foto da revista Esquire



Ao contrário do que eu tinha visto referido, a segunda fotografia não é de Atenas mas de Vancouver, depois de um jogo desportivo. Ainda assim, uma grande fotografia.


21/04/2011



CAMPANHA ELEITORAL À JAPONESA





No próximo domingo, o Japão escolhe 88 presidentes de câmara e 283 assembleias municipais. O debate foi discreto, arredado da imprensa e refém da catástrofe do mês passado. O mais curioso para um observador externo é olhar para a campanha: o silêncio das cidades japonesas (mesmo numa grande capital como Tóquio) é rompido por carros semi-alegóricos que desfilam debitando decibéis de promessas. Distribuem-se folhetos e as "arruadas" (o termo é absolutamente impróprio, uso-o só para comparação com a terminologia portuguesa) não são muito diferentes: o candidato avança rodeado da equipa com bandeiras, distribuiu sorrisos e cumprimenta com vénias os passantes. O mais curioso é que, por razão que não descortino imediatamente, os membros do staff de campanha estão marcarados e acenam mecanicamente e sem cessar como se fossem uma família real no varandim dum palácio europeu.

Um aspecto muito curioso é que a grande maioria das listas a sufrágio, não são de partidos: são de grupos independentes de cidadãos. O poder local (as eleições são para o nível "mais baixo", equivalente à nossa freguesia, aqui correspondente ao "ku") não é coutada partidária mas sim da sociedade civil.

Nem vale a pena dizer que não há um cartaz colado nas paredes, nem um papel pelo chão. Semanas antes de começar a campanha, foram postos em vários pontos da cidade uns painéis de madeira, com divisórias, sendo que cada grupo concorrente afixa a sua propoganda apenas e só no pequeno quadrado que lhe está adstrito (ver foto em cima).

Esta manhã, dei com este cartaz onde constatei - não sem agrado - que um conhecido e popular político português é candidato em Chiyoda-ku. Sempre foi um homem do mundo.


14/04/2011

GANDHI WAS GAY? AND WHO CARES?



Num grupo saturado de conversas sobre sismos, tsunamis e nucleares, alguém lançou a pergunta: “what do you think about this new book claiming that Gandhi was gay?” Sentiu-se um gelo muito próximo daquele momento em que o escritório começa a abanar. Colega sentido protestou com uma convicção que ia claramente para além do que o zelo profissional recomendava. De repente ficámos todos a discutir um livro que, por acaso, ninguém tinha lido. Por isso todos os argumentos – sejam em que sentido – perdem razão, lógica e pertinência. Atacar ou defender um livro em que ninguém tocou é um exercício pouco sério mas em que também colaborei naquele momento.

É evidente que, do ponto de vista biográfico, pode fazer sentido defender tal tese (ou o seu inverso), se ela tiver uma sustentação factual séria baseada em documentos. Por isso a discussão, como foi posta entre nós, estava enviezada. O meu ponto na discussão entre uma audiência que nem sabia o nome do autor do livro era: a pergunta que se pode fazer não é “was gandhi gay?”. A pergunta que se deve fazer é “who cares if Gandhi was gay?”.

Além de que, pelo que li em fontes alheias, esse nem é o ponto verdadeiramente controverso do livro. Seja como for, se a Amazon não falhar, 2ª feira já o livro deve cá estar
.

08/04/2011

JULIANO MER-KHAMIS (1958-2011)


Juliano Mer-Khamis era filho de mãe judia e de pai árabe. Era actor e participou em vários filmes (só vi "Tel Aviv Stories"). Em 2006, criou o Teatro da Liberdade onde organizava ateliers de representação com crianças árabes e judias. Foi assassinado com 5 tiros à queima roupa na passada 2ª feira, em Jenin.

Disse numa entrevista: "I'm 100% jew and a 100% arab. Either we live together, or we won't live at all".


As balas mataram Khamis mas não as razões de Khamis.


17/01/2011

TUNES, Avenue Bourguiba, Maio de 2010



Por causa do povo na rua em Tunes, comecei a ler há dias um livro chamado "Amours Errantes", de Ali Bécheur, que comprei numa livraria esconsa, em Tunes, em Maio passado. Passeava eu pela pequena secção francesa desta livraria escura mas charmosa quando dei com este livro dum advogado e activista tunisino e que comprei pela simples razão que o livro tem uma epígrafe de Fernando Pessoa.

Sobre o livro, que foi um best-seller na Tunísia, lembro-me de ter falado nessa mesma tarde numa esplanada na Avenida Bourguiba com um jovem assistente universitário, investigador em Oxford e em Siena, onde escrevia uma tese sobre literatura italiana. Gente de espírito fino, portanto.

Feito o intróito literário, consegui desviar gentil e cautelosamente a conversa para a política como era minha intenção. E o meu interlocutor garantia-me que Ben Ali era um democrata, eleito democraticamente pelo povo.

- Mais il a gagné les elections avec 99% des voix. Vous croyez que ça c'est normal? Vous avez vu ça en Angleterre ou en Italie, ou vous habitez quelques mois par an?, respondi.

Respondeu-me com a sabatina habitual nestes casos e que já conheço de cor: que eu queria analisar a situação com os olhos de um europeu, que tinha de compreender que existia mundo fora da Europa de Bruxelas, etc.

- Le Président Ben Ali est un père du peuple, il fait tout pour nous, on vit en pleine liberté et on en profite. Mais vous ne comprennez pas ça en Europe.

A conversa ainda continuou comigo a apontar exemplos e a fazer perguntas. Mas a verdade é que nenhum de nós se deixou demover.

Agora que o "pai do povo tunisino" partiu num avião sem regresso para a Arábia Saudita, tenho-me lembrado deste jovem investigador, um intelectual poliglota. Porventura, se estiver em Tunes, também andou pela rua a gritar pela liberdade. Mais vale tarde do que nunca.

22/12/2010

A LITURGIA MULTILATERAL



Padres por esse mundo fora enceram os soalhos dos templos, puxam o brilho à talha dourada e preparam-se para queimar o incenso em vésperas da noite em que todos assolam à igreja, mesmo aqueles que passam ao largo o ano inteiro. Eu já tive a minha dose de liturgia adventícia, com 48 horas fechado numa sala de reuniões a discutir o futuro de não importa agora o quê. Já tinha saudades: noite dentro a fazer drafting, pausas para consultas em cada duas horas, delegados a dormir nos corredores, doses reforçadas de café, computadores que projectam textos enormes até inexplicavelmente deixarem de funcionar, intérpretes com horários incompatíveis com a música que aqui se baila, secretariado a fazer milhões de fotocópias de drafts que acabarão no lixo, desfolhar de calhamaços à procura de agreed language, dramas, ameaças e crescendo de tensão. Até tudo acabar bem, numa sessão plenária cuja hora nunca tem nada a ver com o inicialmente previsto. Há todo um rito a cumprir para subir a este quase-Golgota. Esta minha vida começou no multilateral e parece mesmo que não há amor como o primeiro.

23/10/2010

THE TEA-PARTY MOVEMENT



Êrnani Lopes dizia sempre nas aulas de geopolítica que o mundo em que vivemos é mutável, complexo e incerto. Mas será ainda muito pior se formos dirigidos por donas de casa cujo único currículo é a liderança de grupos anti-masturbatórios, alucinados que querem ensinar o criacionismo em vez do evolucionismo e pastores pseudo-visionários incapazes de ver para lá da cerca do quintal. God bless America.

22/10/2010

Manhã cedo em Tóquio: o metro, uma francesa, uma japonesa, Angela Merkel e Álvaro de Campos

Entrei no metro na estação de Omote-sando e peguei no livro sobre o bushido, o código de ética dos samurais. Três estações me separam do destino final mas o livro é tão bem escrito que não resisti a esse exercício semi-masoquista que é ler no metro, entalado entre a mole humana e tentando vencer o desafio de repor a ordem nas palavras sovadas pelos apertos da multidão. Na estação seguinte, Ayoama-itchome, cruzam-se várias linhas e saiu muita gente mas entraram quase outros tantos entre as quais duas raparigas nos seus mid-twenties, uma ocidental e outra japonesa. A autóctone tinha o cabelo pintado de laranja, sacola à tiracolo, maquilhagem carregadíssima que lhe fazia os olhos cavados e distantes do sono. A europeia (francesa, percebi depois) tinha piercings em cada poro e lambia os lábios com uma pseudo-sensualidade aprendida em revistas femininas vendidas em quiosques suburbanos. Falavam inglês (mal) e a francesa queixava-se da família do namorado enquanto bebericava um copo de café, do qual tacticamente me afastei. A japonesa ouvia e dizia que sim com a cabeça mas mantendo uma distância ontológica, perante uma indignação estudada e crescente da outra, que agitava as mãos, afagava o peito e inclinava a cabeça para trás, como que a sinalizar que não aguentava mais os despautérios do proto-futura sogra. Ao pescoço trazia um fio muito fino onde balançava uma medalha de santo enegrecida. A japonesa continuava a ouvir, atenta e fiel, mas ia desviando o olhar para o telemóvel. (Estávamos já em Nagatacho, saem muitos funcionários públicos, é a estação dos “ministérios”, as meninas acomodam-se ao canto mas não se desviam nem a francesa interrompe o crescente de indignação). O metro arranca para a estação seguinte, Hanzomon, onde tenho de sair, mas a japonesa faz o favor de ditar o juízo final antes, explicando à francesa o mais improvável dos pontos de vista na óptica de Paris (e de Lisboa, concedo). A francesa ficou em silêncio, eu fiquei em silêncio, tive mesmo a sensação que toda a carruagem ficou em silêncio e que o mundo todo ficou em silêncio. Lembrei-me da senhora Merkel a dizer que o multiculturalismo falhou. Lembrei-me de Álvaro de Campos e de “sentir tudo de todas as maneiras”. E pensei que é uma pena que Angela Merkel nunca tenha lido Pessoa.