14/07/2010

AS PUTAS DA MINHA RUA



A minha rua em Bruxelas é, quando o sol foge esgotado e a lua circula tímida, prolífica em – digamos como Natália – sacerdotisas do amor. Passam devagar, cabelos longos e vestes curtas, maquilhagem exagerada e colorida, adereços reluzentes de falsidade, peitos generosos de silicone e carteiras de alças longas que balançam ao sabor dos passos descontraídos. Há já algum tempo, eu ia a chegar a casa, já tarde, num sábado à noite e, quando saio do táxi, vejo aquela que se podia chamar Amélia (“dos olhos doces”...), rosto habitual naquela esquina, encostada a uma soleira. Disse-me “Bonsoir cheri”. Depois de um segundo de hesitação, respondi: “Bonsoir, ça va?”. Quando chego tarde a casa, está lá sempre, mais acima ou mais abaixo, e faz-me um cerimonioso aceno de cabeça. Vou ter saudades desta Amélia de que nunca soube o nome. Pode ser puta, mas é a puta da minha rua.

13/07/2010


COISAS QUE ME INTRIGAM NOS HOTEIS



Os hoteis têm coisas que me intrigam: (i) o papel de carta e os envelopes, já amarelados, enfiados numa pasta de cabedal toda riscada. Mas quem é que ainda vem para um hotel e escreve cartas? SMS’s, mails, telefonemas, até talvez postais. Mas cartas ?!? Será para manter a memória de um tempo que já não há?; (ii) porque é que os empregados não entalam como deve ser os lençois e acordamos sempre com a cama toda desfeita?; (iii) onde é que eles compram os cinzeiros, sempre tão feios e de má qualidade?; (iv) porque é que a luz para ler na cama é sempre tão fraca ? para poupar ? Já terão ouvido falar de lâmpadas de baixo consumo? (v) por que é que está uma bíblia escondida na gaveta da mesa de cabeceira?

12/07/2010


ARDENTES ARDENAS

Se a ideia era fugir à canícula que se abateu sobre Bruxelas (uma das maiores desde 2003, com temperaturas a atingir 36 graus, o que aqui é simplesmente insuportável), não foi talvez muito sucedido. Mas há vida para além dos termómetros.

La Roche en Ardennes, praça central, com o termómetro a marcar uma temperatura que nunca vi na Bélgica:



Ainda La Roche en Ardennes:




Houfallize, onde, ao que parece, são grandes ciclistas:


Mas, ao mesmo tempo, têm os valores certos no sítio certo:


A mui turística Bouillon (nome estranho para uma localidade mas, considerando que em Portugal há uma aldeia chamada Carne Assada...):


Dinant, onde nasceu Adolphe Sax, criador do saxofone:




O Chateau du Pont d'Oye, um local absolutamente mágico. Trata-se de um castelo ainda hoje pertencente aos herdeiros da Marquesa de Pont d'Oye, uma mulher da nobreza valã que, no século XIX, ficou conhecida pelas suas excentricidades e pelas festas que dava nesta casa, hoje transformada em hotel. O luxo e a opulência levaram-na à pobreza e, em consequência disso, à loucura. Encontraram-na, por isso, morta, na floresta que rodeia a casa. Hoje o local é um pequeno hotel de charme que serve para encontros internacionais de think tanks e escritores que aqui se instalam em residências literárias. Está bastante decadente mas essa decadência conserva um charme intocado e parece que estamos num filme inglês de época. Tem corredores longos e escuros, habitados por memórias e fantasmas que saem de estantes carregadas de livros encadernados em pele e ouro.











E um pequeno e delicioso apontamento para terminar. Note-se não só o conteúdo do aviso mas sobretudo que ele resulta dum "AR", ou seja, dum Arrêté Royal.

09/07/2010


AS MADALENAS E O PROUST, O QUEIJO, EU E LUANDA




Todas as 5ª feiras à hora de almoço, quando vivia em Luanda, ia ao supermercado da ELF comprar meia dúzia de coisas muito específicas. Era, à época, o único em Luanda que, pese embora os preços que praticava (já então Luanda era uma das cidades mais caras do mundo), tinha aquilo que na Europa se chama a 'fileira gourmet' e que, na lonjura angolana, adquiria um estatuto quase mítico. Cada pessoa tem a sua fixação gourmet e há nesses pequenos tesouros uma capacidade indisível de nos resgatar à escuridão. Era no supermercado da ELF, que ficava na Rua António Barroso, ao bairro de Alvalade, justamente à 5ª feira (por chegar nessa madrugada o abastecimento de Paris), que se encontrava toda a gente da Luanda do asfalto (como se diz por lá, por contraposição à Luanda do musseque). Com devoção quase religiosa, durante dois anos, nesse dia à hora de almoço, eu comprava 250 gramas de queijo emental, que o empregado embrulhava num papel pardo brilhante e que eu ia comendo, em parcimónia repartida, até à semana seguinte. Lembrei-me disto, de repente, quando, esta semana, num anódino supermercado belga, dei de caras com a mesma marca de emental que fazia as minhas delícias luandinas. Ainda peguei no pacote e olhei para ele, por dois longos minutos, com uma interrogação existencial. Depois, com um ataque de lucidez, tornei a colocá-lo na prateleira e vim para casa apenas com o meu habitual queijo flamengo. O passado é um país distante. E é assim que deve ser.

08/07/2010


SEX AND NO CITY


I do like these gals. And I love the series (and sorry, it may not be Mme. Bovary or Le Temps Perdu, but it is not as superficial as some may tend to think – it is full of real life, life as it is, life of ordinary people, life of happiness and sorrow). But it doesn't work as a film. The rhythm of the series, in a 25 minute episode, is not consistent with the logic of a 2 ½ hour film. But there is more: S&C is not just about the four. There is a 5th and crucial character: the big apple, New York City. In this film, NYC vanishes and we go to the desert in Abu-Dhabi (what could had been an amazing PR exercise for Abu-Dhabi turned out in very bad publicity…). For “Sex and the Desert”, several other options come to my mind, in fact. We want NYC back. And please, do us a favour: stop the sequence of movies. Leave us the good souvenir of the good old series.

07/07/2010

Matilde Rosa Araújo (1921 - 2010)





Morreu a menina dos pés frios.



Things I will miss about Brussels (VII)



Tropismes is not just a bookshop (‘La Posada’, close by, is internationally mentioned as ‘the’ bookshop to visit in Brussels but I must say I was never able to fall in love with it). Tropismes is a place to go, read books, mingle, turn the pages of books we will never buy (and of those we will buy), touch the covers, look at the mirrors and seat for a coffee. Their best section is, in my opinion, social sciences. And they have a great plus vis-à-vis other bookshops: the staff here knows about books, they know they are not selling vegetables. Doesn’t that make a huge difference?

06/07/2010


SOLTA-SE O BEIJO

Toronto, Junho 2010, Manifestações anti G20



LOS DIAS LOCOS DE MADRID (II)





A casa onde nasceu a rainha Fabiola:




Plaza Mayor:


Ainda a Plaza Mayor:




Final de tarde no 'passeo' em frente ao Metropolis (a 27ª coca-cola do dia...):




E agora alguns apontamentos de vida real, uns snapshots apanhados no momento...

Como é sabido, Madrid é uma cidade muito quente. Ora, cada um resolve o problema como pode. Esta senhora, sentada em La Latina, fez uso da solução tradicional, sacou do 'abanico' e eis que se abana com fervor:




Já esta família recorreu a método distinto. A casa devia estar quentíssima, o ar condicionado avariado, os 'abanicos' perdidos... por isso, vieram para a varanda refrescar-se em plena Gran Vía. Havia uma multidão cá em baixo a aplaudir, pelo que tiveram direito aos 15 minutos de fama:



O calor apertava em plena Gran Vía e enquanto a multidão aplaudia a família que se refrescava na varanda, o vizinho do prédio em frente, solidário com o sofrimento da multidão perante a canícula, recorre a outra solução e começa a despejar baldes de água da varanda!:


Este senhor passeava-se alegremente lembrando um princípio constitucional, pilar do estado de direito:



A melhor publicidade que já vi a um hotel:

05/07/2010


LOS DIAS LOCOS DE MADRID




Sempre que vou a Espanha, fico com a sensação que os filmes do Almodóvar não são obras de ficção mas um documentário longo, continuado e realista sobre um país que, nas últimas três décadas, se reinventou. Uma certa Espanha de outrora está a desaparecer – a Espanha do Vale dos Caídos, dos supermercados de fronteira a vender espargos e melacotons, dos caramelos da viúva Solano, da peseta fraca, da pobreza envergonhada, dos curas de cabeção. Ainda lá estão? Presupuesto. Mas hoje há também uma Espanha da nova onda, moderna, arejada, aberta, cosmopolita, livre, descomplexada e vanguardista. A casa de Bernarda já não é Alba (se calhar nunca foi), a honra já não se resgata aos tiros às cinco em punto de la tarde. As freiras com ar piedoso ainda são o reconforto espiritual da burguesia de Salamanca que lê o ABC mas já nem as suas devotas preces resgatam as almas. Madrid não é uma cidade bonita, mas é uma cidade viva, a pulsar em cada esquina. Da fusão do flamenco dos tablaus com o tecnho-pop, resultou ‘una vida loca’. Madrid está muito à frente.

03/07/2010

Toda a gente le este livro no verao de 2010... o Carlinhos debaixo do sol grego!
(teclado sem assentos)

02/07/2010


DEUS E AS ESCADAS ROLANTES


No aeroporto de Bruxelas há escadas e passadeiras rolantes para todo o
lado excepto para subir ao corredor onde estão os locais de oração
católico, protestante, judaico, islamico e ortodoxo. Faz sentido:
nunca ninguém disse que era fácil chegar ao reino de deus.


01/07/2010

CAIXAS, TRALHA E ARRUMAÇÕES



Despejar a casa para dentro de caixotes. Arrumar a vida, etiquetá-la e fazer listinhas. Separar aquilo que continua connosco daquilo que deixamos para trás. Pôr ordem em quatro anos. Fazer de conta que arrumar a tralha é também arrumar a vida.

30/06/2010


THINGS I WILL MISS ABOUT BRUSSELS (VI)


Les Soirées. It was not easy to find a good photo for this, so take the image below and let your imagination fly! I surely had some friends who were kind enough to drag me around the good places in town. OK, it is true that options are endless but after 4 years I am now sure I have spotted the best places. Useless to ask for details: secrets are to be kept among friends; we want to keep it very exclusive. Right?

29/06/2010


PAULO JORGE (1929 - 2010)


- Sabe porque é que em Portugal se diz "Ministério dos Negócios Estrangeiros" e em Angola "Ministério das Relações Exteriores"?, perguntou-me Paulo Jorge, velho soba do MPLA, deputado e ministro dos exteriores ao longo dos anos 80.

- Não, respondi eu.

- Porque enquanto vocês fazem "negócios", nós estamos a ter "relações", respondeu.

Morreu sábado passado em Luanda. Tinha muito sentido de humor e era amigo de Portugal.



DE QUE FALAMOS QUANDO FALAMOS DE POVO?



Espero ter tempo, quando for a Lisboa, para ver a exposição sobre o "povo" que está no museu da electricidade no âmbito do centenário da república. Para já, acho deslumbrante a reescrita do busto da "República", feita por Rui Sanches, e que se pode ver nestas fotografias: o tempo pós-moderno em que vivemos é um tempo que teve o mérito de libertar a palavra povo de inúmeros sentidos nos quais a história o tentou amordaçar: o sentido jacobino, liberal, proletário, religioso, étnico ou rácico. O século XXI é o tempo do fim do mito da subjectividade originária. E a gramática escultórica de Sanches mostra isso mesmo.

28/06/2010


Wadi-Rum, a ausência de nós




Em “Os Sete Pilares da Sabedoria”, T. E. Lawrence descreve Wadi Rum como um local onde “as paisagens, como os sonhos infantis, são vastas e silenciosas”. Sessenta quilómetros a norte de Aqaba, subindo pela estrada do deserto, ali está, escondido, discreto e pujante, o vasto deserto de Wadi Rum. Pátria de beduínos, esconderijo de guerrilheiros, cenário de camelos e tendas rústicas onde o viajante pára para beber um chá, Wadi Rum nasceu para o turismo em 1984 quando os ingleses pediram autorização ao governo jordano para desenvolver as potencialidades que o lugar tem. O pastorio cabril conheceu o seu fim e os camelos deixaram de ser meio de transporte para passarem a ser cenário de fotografias. Nem tudo pode ser perfeito mas metade dos 5500 habitantes de Rum (com referências no Corão e presumindo-se significar “o ponto mais alto”) converteu-se ao turismo. Montaram restaurantes em tendas tradicionais, vendem bugiganga (e juram que é “antigo”), servem chá, ensaiam passos de dança e, claro, posam para as fotografias. Há um lado de turismo de século XXI mas, ao menos, os restaurantes foram poupados ao néon e o viajante come, sentado em almofadas no chão, espetadas de borrego e pão árabe com hummus.

O almoço às portas do deserto, num oásis despido de gente quando a Europa ainda vive um inverno rigoroso, é uma boa introdução ao que está para vir embora, naturalmente, se trate de uma parte a que Lawrence foi poupado, ocupado que estava a traçar planos de guerra com o príncipe Faisal. Expulsar os otomanos era a sua missão e, com a ajuda dos ingleses, tê-la-á cumprido com o mérito que a história lhe reconhece.

Percebe-se pelas conversas que, se Lawrence foi convertido em ícone turístico para alguns viajantes, também não é menos verdade que os jordanos de hoje não guardam dele as melhores memórias. Mas o aventureiro e espião inglês é, na verdade, secundário quando caminhamos nas areias de Wadi Rum. O que conta aqui é a planura do deserto. Em jipes descapotáveis partimos por entre as dunas, conduzidos por beduínos convertidos da arte camelar ao não menos difícil mister de conduzir 4X4 sem os atascar no areal. Dir-se-á que não há muito para dizer do deserto. É verdade. Porque o deserto, (salvo, porventura, para aqueles que escutam “uma voz que clama”, ao jeito de Paulo a caminho de Damasco) é sobretudo o “não–dito”, o eclipse do verbo, o peso do silêncio, o enigma do binómio presença/ ausência, a majestade da cor, a dança da areia ao sabor do vento, o pó em nós a antecipar o dia em que seremos nós o pó, o chá de menta numa tenda, uma fogueira ao final da tarde para tentar contrariar a descida vertiginosa de temperatura, o olhar dos homens (onde estão as mulheres?), a hospitalidade dos locais e a generosidade entre os aventureiros que ali passam umas horas roubadas à vida que julgam ter cá fora. O deserto é a frustração de Mahdi, o guia beduíno que me levou nesta incursão e que, enrolando-se no seu sofrível linguajar ocidental (e numa mortalha amarelecida que se colava aos lábios durante horas), dizia, à beira da frustração (linguística e existencial): “Não sei explicar, isto é único”.

O deserto, mesmo por umas horas e com regresso marcado, é a ausência de tempo. Não importa chegar – nem sequer “ousar partir”, como no poema do Torga – mas conseguir “estar” como se para nós, ali, o tempo não existisse. Não existiu para os nossos motoristas que, a certo momento, encostaram os jipes, fizeram a ablução e rezaram virados para Meca. Não há Lawrence, nem Torga, nem ninguém que tenha alguma vez conseguido explicar tal coisa. Num mundo frenético, ruidoso e quase sempre desinteressante, o nada do deserto resgata-nos. Talvez porque só ali se sente a ausência de nós.


(F., 19 Junho 2010)





27/06/2010


VERÃO AO FDS






É a loucura: no ano da graça de Deus de 2010, o verão, em Bruxelas, calhou a um fim de semana. O povo ensandeceu: 30 graus, noites quentes, esplanadas cheias, chapéus, óculos de sol e havaianas. Ontem, junto ao Átomo, havia uma senhora que punha creme protector, no parque de estacionamento; esta manhã havia piqueniques no relvado em frente à catedral; gente deitada na relva, em fato de banho, como se estivessem nas Caraíbas; arranjar um lugar numa esplanada é miragem; uma mesa num restaurante exterior implica declarar guerra a uma mole de aflitos. Num país que não teve a benção do sol, o povo transtorna-se. Mas ao mesmo tempo fica mais sorridente. E agora, com licença mas vou ali beber uma 'blanche'. Há um sol à minha espera. Um sol que nos beija.

26/06/2010

Things I will miss about Brussels (V) - Pizzas 'Mamma Roma'



The best pizzas in town. Pizza al taglio, several options available but there is one with potatoes and truffles that is beyond imagination. It is like heaven, a paradise, better than s… well, never mind. But they are very good anyway.

25/06/2010

SARAMAGO



Ontem à noite fui reler passagens de "Memorial do Convento": é quanto baste para o Nobel. Se outra coisa Saramago não tivesse escrito, as páginas do casamento de Sete-Sóis e Sete Luas, o olhar barroco encantatório de Blimunda, a mulher que via para dentro dos outros, a esperança nunca vã do Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão e a fúria serena da passarola eram suficientes para levar Saramago a Estocolmo. E só essas páginas são suficientes para termos já saudades de Saramago.